campanha contra a violência mulheres

Ser mulher em tempos de cólera

campanha Não à violência contra as mulheres
Divulgação

Tristes tempos! Vivemos num mundo com muita tecnologia e avanços em diversos campos do conhecimento (científico, político e social), porém, ainda testemunhamos atitudes covardes e banais que levam mulheres à morte. Nunca se matou tantas mulheres – donas de casa, estudantes, crianças, adolescentes, profissionais liberais, servidoras públicas, missionárias, ativistas e políticas – no Brasil! Algumas conseguem destaques nos veículos de comunicação e nas plataformas digitais, outras, se tornam apenas parte de um número assustador. Em alguns casos, a justiça chega, em outros, a impunidade persiste. E não basta apenas matar a mulher, a crueldade humana chegou às redes sociais, por meio de notícias e perfis falsos (ou hackeados) que buscam desmoralizar a vítima.

Ser mulher nunca foi fácil

Desde que o mundo é habitado por seres humanos, a mulher “paga o pato” por ter nascido mulher. Na religião e na mitologia, temos como exemplos Lilith, Eva e Pandora, a primeira foi rebelde à Deus e a Adão, e a segunda, boazinha até comer a maçã oferecida pela serpente.

acessado em http://greekmythology.wikia.com
A Caixa de Pandora

A terceira, criação de Zeus, chegou à Terra carregando uma caixa que jamais poderia ser aberta e abriu por curiosidade, espalhando pelo planeta todos os males do mundo e, um único dom: a esperança. Essas três mulheres têm em comum, a responsabilidade (segundo os homens) pelas desgraças humanas, e, no decorrer História, as mulheres continuaram a levar culpas de muitas coisas. Até hoje, né? Lembrei de um caso de uma mulher brutalmente assassinada pelo ex namorado, e muitas pessoas a culparam por não ter escolhido um homem melhor!

A História relata que muitas civilizações antigas, ofereciam mulheres para sacrifícios porque acreditavam que os deuses ficariam felizes e calmos. Quando Pedro Álvares Cabral desembarcou em terras tupi-guarani, o machismo veio junto e, muitas índias foram estupradas, escravizadas e assassinadas. quadro do pintor Rugendas, 1825Séculos depois, muitas escravas negras se tornavam objetos sexuais nas mãos de seus senhorios; as que negavam ou tentavam fugir, eram torturadas e mortas. Muitas mulheres brancas, de boas famílias, criadas para casarem e gerar muitos filhos, também eram tratadas como objetos e tinham de aguentar caladas as traições do marido. E ai daquelas que ousavam levantar a cabeça e reclamar: tomavam um grande tapa na cara (quando não morriam).

Não afirmo aqui que as mulheres sejam anjos, livres de coisas erradas e sem maldades – há mulheres más, traiçoeiras e assassinas cruéis – e a justiça deve resolver isso. O que eu me refiro neste artigo é que a História nos mostra, a diferença como o homem e a mulher foram criados: enquanto o rapaz é incentivado a desbravar o mundo e a ser “macho” (e conhecer sexualmente mulheres antes de se casar), a menina, quase sempre, era incentivada a montar o enxoval e rezar para ter um bom casamento e ventre saudável para gerar bebês. As mocinhas rebeldes recebiam severos castigos e punições de seus pais ou tutores (poderiam até ser levadas à força para um convento) e, depois de casadas, eram “corrigidas” por seus maridos.

Há civilizações onde a mulher sempre teve um papel fundamental e respeitoso, porém, mesmo assim, as liberdades dadas aos homens desde a tenra idade, não foram dadas às mulheres. Isso é fato.

pintura sobre o martírio de Joana D'Arc
O martírio de Joana D’Arc

Houve um tempo sombrio em que a sabedoria e o sexto sentido de uma mulher, a levava para a fogueira sob acusação de bruxaria! Mesmo com o advento do Feminismo e das inúmeras conquistas que as mulheres conseguiram após muitas lutas, há muito o que melhorar. Em pleno século XXI, onde o acesso à informação é muito mais fácil do que no início do século XX, ainda temos, infelizmente, comportamentos machistas dignos dos tempos da caverna. O sentimento de posse, a negação em respeitar a opinião/decisão feminina, o desejo a todo custo de reprimir a liberdade da mulher, são alguns dos motivos que levam homens mal resolvidos consigo mesmos, a matarem. No mundo contemporâneo, mulheres são apedrejadas ou chicoteadas, por motivos fúteis, publicamente em muitos países do Oriente Médio – isso quando não são sequestradas por grupos terroristas e vendidas como escravas sexuais. Hoje, enquanto você lê este artigo, mulheres brasileiras estão sofrendo algum tipo de abuso – seja dentro do lar, no trabalho, na rua ou no caminho para a casa. Ao terminar, muitas mulheres, a maioria negra, foram assassinadas.

Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2017

Em 2016, houve 49.497 ocorrências de estupros de mulheres! E uma mulher foi assassinada a cada duas horas, e apenas 621 casos foram classificados como feminicídios – o número está bem abaixo da realidade e demonstra as dificuldades no primeiro ano de implementação da Lei do Feminicídio (na classificação do que é homicídio e o que é feminicídio). Estes são os dados apresentados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2017, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Feminicídio – palavra feia, né? 

divulgação campanha FeminicídioEm março de 2015, foi sancionada a Lei 13.104/2015, a Lei do Feminicídio, tornando-o crime hediondo e com agravantes quando acontece em situações específicas de vulnerabilidade como gravidez, menor de idade, na presença de filhos, etc. Segundo a lei, o feminicídio acontece “quando a agressão envolve violência doméstica e familiar, ou quando evidencia menosprezo ou discriminação à condição de mulher, caracterizando crime por razões de condição do sexo feminino”. Portanto, uma vítima de feminicídio é uma pessoa do sexo feminino, que sofreu agressões intencionais, no âmbito familiar, que causaram lesões ou agravos à saúde que a levou à morte.

Mapa da Violência

Em 2015, o Mapa da Violência (Homicídios de Mulheres no Brasil, por Julio Jacobo Waiselfisz) realizou comparação das taxas de homicídio de mulheres (por 100 mil) nas Unidades da Federação em suas respectivas capitais. Entre 1980 e 2013, morreram 106.093 mulheres, sendo que a taxa em 1980 era de 2,3 vítimas de homicídio por 100 mil, e, em 2013, passa para 4,8, gerando um aumento de 111,1%.

Maria da Penha
Maria da Penha

Em 2006 foi sancionada a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340). Segundo o estudo, entre 1980 a 2006 (antes da Lei), o número de homicídios de mulheres foi de 7,6% ao ano. Com a vigência da Lei, o número de homicídios cai para 2,6% e o crescimento das taxas cai para 1,7% ao ano (dados de 2006/2013). No período de 2003 a 2013, apenas cinco Unidades da Federação registraram quedas nas taxas de homicídios: Rondônia, Espírito Santo, Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro. Nas 22 UFs restantes, no mesmo período, as taxas cresceram de forma variada: de 3,1% em Santa Catarina, até 131,3% em Roraima. Essas oscilações se dão por circunstâncias locais, mais que a fatores globais.

Em relação a evolução do homicídio de mulheres nas capitais dos estados, entre 2003 e 2013, as taxas caíram 5,8%, enquanto, as taxas de homicídios das UFs cresceram 8,8%. Segundo o Mapa da Violência, esses números evidenciam um fenômeno já detectado em mapas anteriores: a interiorização da violência, isto é, os polos dinâmicos da violência letal se deslocam dos municípios de grande porte para municípios de médio porte. As capitais Vitória, Maceió, João Pessoa e Fortaleza são as com taxas mais elevadas (dados de 2013), acima de 10 homicídios por 100 mil mulheres.

O Mapa da Violência também aponta a questão da incidência da raça/cor na violência letal: a população negra é vítima prioritária no país. No período de 2003 a 2013, os homicídios de negras aumentam 54,2%, passando de 1.864 (2003) para 2.875 vítimas em 2013. Verificou-se que nos últimos anos, o índice cresceu de forma drástica, enquanto as taxas de homicídios da população branca tendem, historicamente, a cair. Um fato curioso, a partir da vigência da Leia Maria da Penha, o número de vítimas entre as mulheres brancas caiu 2,1%, e aumenta 35,0% entre as negras.

campanha

Como as mulheres morrem?

Os dados do Mapa da Violência também apontam os instrumentos ou meios utilizados na agressão que levou à morte da mulher. Apesar de haver controversas, concebe-se que o grau de premeditação do homicídio é indicado pelo meio ou pela forma com que foi feita a agressão: Em 2013, mulheres foram assassinadas por meio de estrangulamento/sufocação (6,1 dos casos), por meio de cortante/penetrante (25,3) e objeto contundente (8,0), indicando maior presença de crimes de ódio ou por motivos fúteis ou banais. A utilização de arma de fogo ocorreu em 48,8 dos casos.

Onde elas morrem?

Em 2013, 27,1% dos casos de homicídios de mulheres ocorreram dentro do lar. Mortes em estabelecimento de saúde (25,2 dos casos), e em via pública (31,2).

Homicídios em Mato Grosso

Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso, entre janeiro a junho de 2017, foram registradas 22.246 ocorrências contra mulheres em todo o Estado, um aumento de 12,5% em comparação ao mesmo período de 2016. Em Cuiabá, o aumento foi de 13,8%.  Segundo o Mapa da Violência (dados de 2015), a taxa de homicídio de mulheres (por 100 mil) em Cuiabá é de 5,8, tornando Mato Grosso o 11º do país.

Na segunda maior cidade do Estado, Várzea Grande, os crimes mais registrados foram os de ameaça com 2.025 casos (2016) e 2.357, em 2017. Em 2016, crimes contra a honra (injúria, calúnia, difamação), foram 1.024 e, no ano seguinte, 1.336. Na Delegacia da Mulher, Criança e Idoso de Várzea Grande, em 2016 foram instaurados 800 inquéritos, sendo expedidas 652 medidas protetivas de urgência. Em 2017, 1.017 inquéritos instaurados, com a expedição de 778 pedidos de medidas protéticas de urgência. Por meio da 6º Promotoria de Justiça Criminal de Várzea Grande, o Ministério Público ofereceu em 2016, 386 denúncias. Em 2017 foram 427 denúncias. O Poder Judiciário deferiu em 2017, 196 medidas protetivas de urgência. Infelizmente, os dados apontam um aumento significativo dessas ocorrências em Várzea Grande.

Para saber mais:

Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2017 – acesse aqui

Mapa da Violência – Homicídios de mulheres no Brasil, 2015 – acesse aqui

 

Anúncios

Publicado por

barbarafontes

Bárbara Fontes é formada em Comunicação Social pela UFMT. Especialista em Educação (Cinema e Educação). É cineasta, jornalista, roteirista, fotógrafa e poetisa. Seu primeiro trabalho em Assessoria de Comunicação foi em 1995. Iniciou no Cinema/Audiovisual/TV em 1994. Passou temporadas em vários países como Uruguai, Argentina, Bolívia, Panamá. Morou em Estocolmo, capital da Suécia, entre os anos de 2000 a 2002. Sua primeira entrevista para a televisão foi aos 12 anos, no programa de variedades, Vitrine, da TV Centro América. Aos 13 anos, escreveu seu primeiro artigo, publicado no jornal impresso, Correio Várzea-grandense. Desde que se conhece por gente, escreveu histórias, composições musicais, roteiros e poemas.

3 comentários em “Ser mulher em tempos de cólera

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s