Centro Histórico de Cuiabá. Crédito: Bárbara Fontes

CUIABÁ, 299 ANOS!

‘Cuiabrasa’, muito prazer!

Pode-se dizer que Cuiabá é quente, um forno, a sucursal do inferno, de tão quente que é. Mas eu digo, com certa segurança de alguém que já rodou o mundo – por terras quentes como a Tunísia, ou terras frias como a Suécia, Cuiabá é a cidade mais aprazível do mundo! Não, não é um exagero bairrista de uma paulista (amo a minha Mogi das Cruzes!), que veio nos primórdios da adolescência, com a família, viver em Mato Grosso. Mesmo com tantas viagens marcadas em minh’alma, o meu cotidiano é viver na ‘ponte-terrestre’ Várzea Grande-Cuiabá.

Quando eu escrevi que Cuiabá é aprazível, eu posso provar com a minha vivência, mas, se se isso for insuficiente, eu provo com dados históricos:

vista da cidade de Cuiabá. Desenho de Hercules Florence

Em “Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829”, escrito por Hercule Florance, sobre as suas memórias quando foi o 2º pintor da Expedição Langsdorff, o rapaz francês, de Mônaco (era muito fechado, e não conhecia o jeito espontâneo do brasileiro) ficou tão chocado com a recepção calorosa que a expedição recebeu, assim que desembarcou no Porto do rio Cuiabá, e também, passeando pela cidade, com o povo cuiabano (em especial as mulheres – que para ele, vestiam poucas roupas e eram alegres demais). Fofocas da época diziam que o 1º pintor da expedição, o jovem Adrien Taunay (tio do Visconde de Taunay), vivia preambulando por Cuiabá (a expedição Langsdorff ficou em Cuiabá por mais de um ano!), amava a mulherada, e vivia intensamente a boemia cuiabana!

O jeito caloroso de ser do cuiabano foi percebido, muito antes da expedição russa desembarcar na cidade. O português Alexandre Rodrigues Ferreira, que comandou a expedição Viagem Filosófica, realizada no final do século XVIII, também passou por Cuiabá, e se encantou com povo. Nos Annaes do Sennado da Camara do Cuyabá 1719-1830 (um dos  meu livros preferidos!), há diversas passagens sobre as visitas dos capitães-generais e outras autoridades, e as festanças que a população organizava de boas-vindas. Diversas autoridades enviou cartas de agradecimentos e citando que Cuiabá sabia receber muito bem as pessoas de fora. Na Cuiabá antiga tinha apresentações teatrais, óperas, desfiles com carros alegóricos (e nem era carnaval!) e muita dança nas casas ou nas ruas. Eu li várias vezes o Annaes do Senado, e afirmo aqui que o povo de Cuiabá adorava uma festa! Eu sei que povo ainda adora um festejo, mas, antigamente, a população era menor e não havia facilidades como existe hoje – então, se o povo, daquela época quisesse uma festa, todo mundo tinha de ajudar – até a igreja!

 

Casa Orlando, Cuiabá. Crédito: Bárbara Fontes/2017
Casa Orlando. Crédito: Bárbara Fontes

Numa pesquisa realizada por mim, em 2017, sobre os irmãos Orlando, italianos de Nápoles, que ajudaram no desenvolvimento de Cuiabá, no início do século XX, e que trouxeram  outros italianos para trabalhar na cidade – e acabaram ficando, e foram responsáveis por um legado cultural e histórico extraordinário. Esses italianos chegaram jovens e solteiros, com o intuito de trabalhar duro. E, adivinha o que lhes aconteceram? Sim, casaram com as cuiabanas! Imagine o jeito italiano de ser, casado com o jeito cuiabano de ser (uma união de português, índio, paraguaio e negro) : e assim nasceu a ‘mistureba’ gostosa que só tem em Cuiabá! Outras Culturas como a japonesa e a do oriente médio, também contribuíram para o desenvolvimento da cidade – assim como, a vinda de milhares de brasileiros de vários cantos do país, que encontraram em Cuiabá, uma oportunidade de vida melhor.

Parte interna do MIS, Cuiabá. Crédito: Bárbara Fontes, 2017
parede de adobe. Parte interna do Museu de Imagem e Som de Cuiabá. Crédito: Bárbara Fontes

 

Para entender Cuiabá, é preciso compreender que ela nasceu por acaso, não foi sonhada e pré-concebida como aconteceu com a cidade de Vila Bela da Santíssima Trindade, no oeste de MT. Cuiabá nasceu da descoberta do outro, e antes disso, era povoada por milhares de indígenas – que com a chegada dos bandeirantes, tiveram três escolhas: fugir para nunca mais voltar, lutar até morrer ou viver sob o comando dos ‘brancos’  (a descoberta do ouro nas Lavras do Sutil foi feito por um indígena). Cuiabá nasceu deflorada em todos os sentidos! E depois de usada, sem o ouro abundante, foi largada à míngua. O jeito foi dar a volta por cima e sobreviver! Os primeiros cuiabanos são os sobreviventes das lutas sangrentas entre bandeirantes e indígenas; e dos forasteiros. Tempos depois, uma nova população surge dos casamentos entre as moças de Cuiabá com os dos servidores públicos, que vieram trabalhar na Vila, e formaram famílias com muitos descendentes que estão até hoje aí.

Cuiabá, está situada no Centro-Oeste do Brasil, no coração da América do Sul, por uma questão geográfica,  sempre esteve distante dos grandes centros, e tudo chegava com muito atraso. Como exemplos: a cidade ainda mantinha a escravidão, quando a Lei Áurea já estava em vigor. Ainda se vivia a monarquia, quando a República já era fato consumado. E, pasmem! O proclamador da República, Marechal Deodoro da Fonseca morava em Cuiabá (antes de ir para o Rio de Janeiro e entrar para história) e foi casado com a cuiabana Mariana Meireles. Cuiabá estava tão atrasada em relação às transformações que o Brasil passava, que o jeito era viver dentro da realidade possível: a vida dura com muitas limitações urbanísticas; comer o que estava disponível, viver sob a régia da Igreja e, festejar sempre que possível – as festas de santos de Cuiabá, que hoje estão mais comerciais (a vida moderna obriga), já foram eventos que agregavam toda população e com muita comida e bebida gratuita.  Até um tempo atrás, havia festas nas casarões tradicionais, como a da querida Dona Bem bem (um ser humano incrível e que deixou muitas saudades!).

A Saga de Cuiabá em cinco atos

Para melhor compreender a Cuiabá de hoje, o Blog da Bárbara Fontes convida para conhecer a saga de Cuiabá – de povoado bandeirante até os dias atuais. Comparando-a com as cidades de São Paulo e Salvador, podemos dizer que Cuiabá ainda é muito jovem com os seus 299 anos, porém, nasceu com a responsabilidade de encher sacos de ouro para o delírio da monarquia portuguesa; cresceu sob constante ameaça de sucumbir a doenças, pragas e outras mazelas; tornou-se adulta para receber as mudanças que os imigrantes e migrantes trouxeram e, hoje, é uma bela e sábia anciã, tão cheia de histórias épicas para contar aos cuiabaninhos, da geração high tech, que nascem todos os dias e, que um dia, estarão ocupando espaços importantes na sociedade!

Abaixo segue um resgate histórico, dividido em cinco atos. Importante ressaltar que os créditos das fotos e as fontes bibliográficas se encontram no final deste texto.

Primeiro Ato – OS BANDEIRANTES CHEGARAM!

Crédito: Moacyr Freitas. Quadro 'Combate de monção com os Paiaguás'Fonte: GCom-MT.

Os bandeirantes paulistas adentraram ao interior do país para capturar indígenas e vendê-los como escravos. Ainda não existia Mato Grosso, somente um vasto território desconhecido com uma densa selva cheia de animais e vegetação desconhecidas, entrecortada por rios e cachoeiras. As monções (expedições), tinham de sobreviver às intempéries da natureza, e, também,  sobreviver aos ataques dos temidos indígenas ‘selvagens’. Os bandeirantes chegaram até os índios Coxiponé, após subirem o rio Cuiabá, e a recepção não foi nada agradável. Teve combates, sim!

Entre os anos de 1673-1682, foi formado o primeiro aldeamento, às margens do rio Coxipó, liderado pelo bandeirante, chefe da expedição, Manoel de Campos Bicudo, que o batizou de São Gonçalo (uma capela foi construída em homenagem ao santo).

Ninguém gosta de ter o seu território invadido, a história mundial nos relata inúmeras guerras travadas, e ainda agorinha, se ligar a TV, verá alguma notícia de guerra por causa de território. Então, já é de se imaginar que os guerreiros Coxiponé jamais aceitariam entregar suas terras de “mão beijada” aos forasteiros, e atacaram o povoado diversas vezes, obrigando os aldeões fugirem e abandonando o local, que, tempos depois, foi tomado pelo mato grosso. Os bandeirantes que conseguiram chegar à capitania de São Paulo, relataram cenas de terror vivenciados nos confins do Brasil, e deram “o endereço” dos indígenas – o que  ocasionou a formação de muitas expedições para o local onde havia povoamento de Campos Bicudo.

 

Segundo Ato – Um novo povoamento

Crédito: Belmonte. O bandeirante Manoel de Campos Bicudo, com o filho Antonio Pires de Campos. "No tempo dos bandeirantes".“Sangue no olho” era o que podemos imaginar de Antonio Pires de Campos quando formou uma monção para retornar à região do Coxipó, onde seu pai havia fundado o primeiro povoado. Ao Chegar, depois de dias e dias de perigosa e cansativa viagem, encontrou os Coxiponé ocupando o lugar, e onde havia a capela de São Gonçalo, era um aldeamento indígena. Mais combates entre os bandeirantes e os indígenas aconteceram, sendo estes últimos presos e a aldeia destruída. Em homenagem ao acampamento formado pelo seu pai, o qual Antonio chegou a morar quando era garoto, rebatizou de São Gonçalo Velho. Dias depois, os bandeirantes seguiram rio Cuiabá abaixo em busca de mais indígenas para matar ou escravizar – o comércio de gentios gerava grandes fortunas para os capitães de bandeiras.

Para quem pensou que os Coxiponé estavam destruídos, se enganou! Eles não se deram por vencidos, e voltaram mais fortes para atacar o novo povoado. E os aldeões foram obrigados, de novo, a abandonar o local, e voltar para São Paulo. No meio da viagem, a moção de Antonio Pires de Campos se encontrou com a bandeira do capitão Paschoal Moreira Cabral, bisneto de Pedro Álvares Cabral – o descobridor do Brasil. Depois de ouvir, atentamente, o sombrio relato de Antonio Pires, Cabral decide ir para a São Gonçalo Velho, seguindo a rota orientada pelo bandeirante que retornou para São Paulo, e capturar todos os temidos Coxiponé e, sim, ganhar muito, muito dinheiro com eles!

Terceiro Ato – Aqui tem OURO, Portugal!

Crédito: Moacyr Freitas. Quadro "As lavras do Sutil"/GComMT.Paschoal Moreira Cabral encontrou o povoado totalmente destruído e sem os Coxiponé para contar a história. A monção seguiu rio Coxipó acima, em busca de um local para pouso e para surpresa de todos, encravados nos barrancos haviam ouro em granetes! Os bandeirantes deixaram as bagagens no local e seguiram rio acima, chegando num local que se chamaria “Forquilha”. Lá havia indígenas que não resistiram e foram presos. Com as canoas cheias, os bandeirantes retorna para o local onde era o aldeamento de São Gonçalo Velho, e um novo batismo se deu: agora se chamaria de Aldeia Velha.

Aldeia Velha era o pouso oficial da bandeira de Paschoal Moreira Cabral. Após muitos desbravamentos pela selva, os bandeirantes também tinham momentos de descanso para se alimentar e dormir. Num dia qualquer, um dos homens de Cabral estava lavando um utensílio no rio e …bingo! achou ouro! O minério podia ser pego com as mãos! Naquele momento, toda a bandeira estava afortunada e, para que continuar correndo atrás de índio? Agora é catar ouro no rio – tarefa mais prazerosa e que os mantinham vivos! O que os bandeirantes – agora ricos homens – não sabiam, é que era ‘ouro de aluvião’, isto é, era superficial e escasso. O jeito foi buscar outros locais auríferos, e as monções seguiram para longe, construindo ranchos com casas e lavouras, sempre às margens dos rios Coxipó e Cuiabá. Os indígenas sobreviventes dos ataques, trabalhavam nas minas ou nos ranchos como serviçais.

 

Quarto Ato – O ARRAIAL

Com a descoberta do ouro, a região ficou famosa em todo território brasileiro, e muitas pessoas vieram tentar ‘a sorte’ nas terras recém-povoadas – que, oficialmente, não pertencia à Portugal. Era necessário e urgente, a Coroa portuguesa tomar posse do local, um território pertencente à Coroa Espanhola, porém, não ocupada, e nem reivindicada pelos espanhóis). Após uma reunião entre os bandeirantes, foi delegado à Gabriel Antunes ir até São Paulo para dar a “boa nova” das lavras auríferas descobertas e levar amostras de ouro aos representantes da Coroa Portuguesa no Brasil, e teria de retornar com as ordens necessárias (aprovadas pela Sua Majestade) para o andamento da região que já possuíam milhares de pessoas.

Enquanto Gabriel Antunes viajava, os bandeirantes que ficaram providenciaram uma certidão para legitimação da terra ocupada: a Ata de Fundação do “arraial do Cuyabá”. E assim, foi lavrada em 19 de abril de 1719, por Manoel dos Santos Coimbra, escrivão, e assinada pelo capitão-mor Paschoal Moreira Cabral e mais 21 homens, os primeiros povoadores. Cabral, enquanto aguardava a volta de Gabriel Nunes com as ordens de comando, ocupou o cargo de regente-mor do arraial. Sua função era guardar todos os ribeiros de ouro, sovacar, examinar, fazer composições com os mineiros e botar bandeiras, tanto aurinas como aos inimigos bárbaros[1].

 

Quinto Ato – Quando uma Vila se torna Cidade

 

Crédito: Expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira/prospecto da Villa do Bom Jesus de Cuyabá_Igreja do Rosário.

Em 1723, no local, onde hoje fica a igreja de São Benedito, surgiu a famosa “Lavras do Sutil”, e por esse motivo que surgiu muitos ranchos e o início do povoamento fixo, fora do São Gonçalo Beira Rio (o primeiro povoamento), e porta de entrada do centro histórico de Cuiabá. Ainda neste ano, é construída a igreja da Matriz (onde está a atual).  Em 1726, o capitão-mor Rodrigo César de Menezes, representante do Reino de Portugal, eleva o arraial do Cuyaba à categoria de vila, com o nome de Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Nesse tempo, a capital da Capitania de Mato Grosso era Vila Bela da Santíssima Trindade. Em 17 de setembro de 1818, a vila foi elevada à condição de cidade e, somente em 28 de agosto de 1835, Cuiabá se torna capital da província de Mato Grosso, mantendo-se até os dias atuais.

 

 FIM DE ATO? Não, CUIABÁ, 299 ANOS!

A Saga continua!

A Cuiabá de 2018, é formada por pessoas vindas de todos os cantos do Brasil, de refugiados, e de estrangeiros que, de todos os lugares do mundo, optaram por viver numa localidade que já foi chamada de ‘Cidade Verde’, com as ruas cheias de árvores e os quintais cheios de mangeiras e outras árvores frutíferas.

Fontes Pesquisadas

Annaes do Sennado da Camara do Cuyabá 1719 = 1830 (Arquivo Público de Mato Grosso);

Erros e Mitos na História de Mato Grosso (Paulo Pitaluga)

Acervos do Arquivo de Mato Grosso; Biblioteca da UFMT; Biblioteca Estevão de Mendonça; Revistas do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso

Wikipédia brasileira   

Créditos da Imagens

‘Cuiabrasa’, muito prazer:

Vista da cidade de Cuiabá. Desenho de Hércules Florence. A imagem foi extraído do artigo Extraído do estudo: Nos confins da civilização: Algumas histórias brasileiras de Hercule Florence.

 

A Saga de Cuiabá em cinco atos:

Primeiro Ato: Quadro de Moacyr Freitas. Extraído do site da GCOM-MT

Segundo Ato: Belmonte – ilustração do livro “No tempo dos bandeirantes”.

Terceiro Ato: Moacyr Freitas/GCOM-MT (nas Lavras do Sutil);

Quarto Ato: Alexandre Rodrigues Ferreira (prospecto da “Villa do Bom Jesus de Cuyabá”/Igreja do Rosário)

[1] Annais do Sennado da Camara do Cuyaba. Arquivo Público de Mato Grosso, p.47.

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Publicado por

barbarafontes

Bárbara Fontes é formada em Comunicação Social pela UFMT. Especialista em Educação (Cinema e Educação). É cineasta, jornalista, roteirista, fotógrafa e poetisa. Seu primeiro trabalho em Assessoria de Comunicação foi em 1995. Iniciou no Cinema/Audiovisual/TV em 1994. Passou temporadas em vários países como Uruguai, Argentina, Bolívia, Panamá. Morou em Estocolmo, capital da Suécia, entre os anos de 2000 a 2002. Sua primeira entrevista para a televisão foi aos 12 anos, no programa de variedades, Vitrine, da TV Centro América. Aos 13 anos, escreveu seu primeiro artigo, publicado no jornal impresso, Correio Várzea-grandense. Desde que se conhece por gente, escreveu histórias, composições musicais, roteiros e poemas.

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