O dia em que o Brasil parou

O que acontece no Brasil?

Na noite de 24 de maio, eu fui dormir acreditando que no dia seguinte não haveria mais a paralisação dos caminhoneiros autônomos após um acordo firmado entre lideranças e o governo federal no palácio do Planalto, em Brasília.

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crédito: Marcelo Camargo/Arquivo Agência Brasil

Mero engano! Acordei com a notícia de que tudo seguia igual nas 28 rodovias brasileiras, com bloqueios e muita tensão. Num primeiro momento pensei o que se passava na mente desses caminhoneiros, como podem fazer um acordo e não cumprir? Será que não percebem que toda nação brasileira está sofrendo com o desabastecimento em todos os setores? Só de pensar que pacientes podem morrer nos hospitais por falta de oxigênio e de medicamentos. E se alguém tiver um ataque cardíaco, um AVC, uma suspeita de dengue hemorrágica e os hospitais não puderem atender? Senti um frio na espinha! Sinto tristeza de ver um país tão rico se tornando miserável, sentindo na pele o que os venezuelanos também têm sentido.

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Coletiva para falar sobre o acordo assinado. crédito: Palácio do Planalto

Mas não é bem assim! Segundo os caminhoneiros autônomos, a reunião realizada no palácio do Planalto não contou com um representante deles, portanto, é ilegítimo para eles. Esse caminhoneiros não seguem um Sindicato ou algum órgão representativo – por isso que não há GREVE e sim, PARALISAÇÃO. Eles decidiram parar porque estavam pagando para trabalhar devido aos inúmeros impostos a que são obrigados. Chegou a um ponto que se tornou insustentável continuar nas estradas e parar era a única saída para chamar a atenção do governo e da população. Para os caminhoneiros, a proposta que o governo federal apresentou não faz sentido, é ilusório. Eles não aceitam as condições que foram acordadas entre pessoas que não os representam. E quem os representam? Segundo esses caminhoneiros: eles se auto-representam. E ninguém foi até eles propor acordos. É legítimo a luta desses caminhoneiros e tem acontecido manifestações pacíficas, que foi ganhando dimensão com a adesão de outras categorias como a dos motoristas de Uber, de vans e dos motoboys. O clima de tensão nos bloqueios foi percebido em alguns locais e não se sabe se foi provocado pelos autônomos ou de outros grupos (ou se apareceram pessoas com o objetivo de criar violência gratuita).

Por que o governo ‘dormia’?

O que mais me espantou foi a demora do governo federal em tomar uma atitude. O esperado era uma ação imediata, já no primeiro dia de paralisação. O que vimos foi um show de atrapalhadas do Congresso Nacional, demonstrando estar tão perdido quanto alguém no meio de um tiroteio.

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Michel Temer faz um pronunciamento sobre a paralisação dos caminhoneiros. Crédito: Palácio do Planalto

O presidente da república, Michel Temer, fez um pronunciamento, ao meu ver, bem tardio. Enquanto o caos se instalava no país, o presidente estava em eventos, como uma solenidade de entrega de automóveis – que nem sairão do lugar por falta de combustível! Sinceramente, a impressão que passa é que ele só falou à população porque já estava ficando feio para o governo.

De segunda-feira, quando iniciou a paralisação, até quinta, quando houve o acordo (o presidente não participou!), parecia que o país não tinha governo e estava à merce de si mesmo! E assim nasceu caos, né? Será que o presidente da república achou que a paralisação não iria ganhar força e apoio popular? Michel Temer acordou muito tarde e o pronunciamento de sexta-feira, 25 de maio, não deveria ser para a população, mas, para todos os caminhoneiros autônomos. O governo já buscou a Justiça (para utilizar as forças federais de segurança) para desbloquear as estradas. O clima ainda é tenso. Ainda não sabemos se utilizar a força armada a essa altura do caos, irá resolver algo. Não adianta um militar ou um policial rodoviário tomar à força as milhares de chaves dos caminhoneiros e tirar os caminhões dos bloqueios – os milhões de toneladas de cargas vão estragar de qualquer jeito, a violência será instaurada, pessoas poderão se ferir e o caos só vai triplicar. Mais uma atrapalhada vinda do poder máximo deste país! Lamentável! O desejo dos brasileiros é que tudo se resolva na civilidade e de forma eficaz.

Acesse o Termo de Acordo para suspender a paralisação aqui.

Oportunistas de plantão

Como já não bastasse o caos com o desabastecimento atingindo todas as cidades brasileiras, surgiu indícios (segundo o Ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann), de “lockout” na paralisação dos caminhoneiros autônomos, isto é,  donos de empresas de transporte estariam obrigando seus funcionários a pararem também (uma greve forçada pelos próprios patrões) – pegando carona na luta na luta dos outros para conseguirem benefícios para as suas empresas. O “lockout” é proibido pela legislação brasileira.

Os altos preços nos postos que ainda tinham gasolina; os preços abusivos em muitos supermercados e atacadistas, e pessoas revendendo combustível que estocou de forma ilegal, só demonstrou que a humanidade anda bem desumana.

Sexta-feira, 25 de maio de 2018

Prefeituras e governos estaduais decretando ponto facultativo ou liberando seus servidores mais cedo; escolas fechadas, postos de combustíveis quase no zero. A primeira capital a anunciar que estava sem combustível foi Palmas, Tocantins. Várias cidades de Mato Grosso estavam com postos fechados. Supermercados e atacadistas com falta de alimentos e produtos de primeira necessidades. Litros e litros de leite sendo jogados fora. Pessoas partindo para a ignorância, furando filas nos poucos postos de gasolina que estavam funcionando. Ônibus circulando somente com 50% da frota. Racionamento de gás nos condomínios. O medo de faltar insumos para o tratamento da água (em Cuiabá só tem insumos para 10 dias!). Aviões comerciais de outros países se recusaram a vir para o Brasil com receio de não conseguir voltar para os países de origem, e muitos vôos domésticos cancelados. Resumo da ópera: Caos!

Várzea Grande-MT, avenida da FEB, meio-Dia. Reflexos da Paralisação

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Av. da FEB na divisa com Cuiabá. Crédito: Bárbara Fontes

A avenida da FEB (homenagem aos pracinhas que lutaram na Segunda Guerra Mundial), em Várzea-Grande (cidade-irmã de Cuiabá) já foi a mais importante via que ligava o Sul de Mato Grosso ao Médio-Norte e Nortão (o famoso celeiro do Brasil). No meio da extensa avenida há uma cicatriz bem viva: os restos do que seria o trajeto do VLT, promessa feita ao povo quatro anos antes da Copa do Mundo de 2014.

 

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Av. da FEB, sexta-feira, 25 de maio. Meio-dia!! Crédito: Bárbara Fontes.

O horário do meio-dia sempre foi tenso na FEB, mas nesta sexta 25, pareceu dia de feriado. Eu caminhava nessa avenida rumo ao atacadista, depois de receber um comunicado de que o gás do condomínio seria racionado porque a empresa contratada não tem mais condições de nos fornecer.  Eu precisava comprar alguns produtos alimentícios que dispensaria o uso do fogão a gás.

 

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Crédito: Bárbara Fontes

No caminho, eu passei num posto de gasolina e, segundo o gerente, não havia mais álcool e a gasolina acabaria até o final da tarde.

 

 

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O desabastecimento atinge todo o estabelecimento! Crédito: Bárbara Fontes

Ao chegar no atacadista (que geralmente fica lotado de gente), estava vazio e o desabastecimento podia ser sentido em vários corredores.

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Poucos produtos e preços altos!! Crédito: Bárbara Fontes

O mais espantoso foi verificar que em 24 horas, os preços haviam aumentado drasticamente! Na quinta, o preço do quilo da batata lavada estava menos de R$ 2,00, e nesta sexta, custava quase R$ 7,00!!!

Fórum do Brasil Central

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Governadores na coletiva de imprensa. Crédito: GCom/MT

Enquanto o Brasil parava, acontecia em Cuiabá o segundo dia da 20º Reunião dos Governadores do Brasil Central. Governadores de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Maranhão, Rondônia e Distrito Federal se reuniram no Fórum do Brasil Central e um assunto que não estava em pauta, a paralisação dos caminhoneiros autônomos e os reflexos em todo país, teve caráter de urgência. Na “Carta de Cuiabá”, os governadores se manifestaram a respeito da crise atual e discordaram com a decisão do governo federal em que passa para os Estados a responsabilidade sobre os preços dos combustíveis. Para eles, a “causa da escalada dos preços dos combustíveis, notadamente do óleo diesel, nos últimos meses no Brasil, se deve exclusivamente à política de flutuação dos preços praticada pela Petrobrás, que os vincula à variação do petróleo no mercado internacional”.

Acesse a Carta de Cuiabá aqui.

Cadê a ferrovia?

Hoje, mais do nunca na história deste país, sentimos o quanto faz falta um sistema ferroviário! Décadas atrás, com o surgimento de indústrias automobilísticas houve uma grande pressão por construções de estradas. Criar ferrovias pelo extenso território não era uma coisa que os grandes empresários desejavam. Se hoje tivéssemos o escoamento de cargas pela ferrovia, não teríamos tantos impostos e perigos nas estradas. A ganância que imperava naquela época é refletida até hoje nos nossos bolsos, cada vez mais vazios.

A verdade é que somos uma nação dependente da logística rodoviária e sim, estamos nas mãos dos caminhoneiros. Se eles param, o Brasil para também. Fato!

Saiba mais sobre os desdobramentos da paralisação aqui.

*crédito da foto de capa: Valter Campanato/Agência Brasil

 

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Publicado por

barbarafontes

Bárbara Fontes é formada em Comunicação Social pela UFMT. Especialista em Educação (Cinema e Educação). É cineasta, jornalista, roteirista, fotógrafa e poetisa. Seu primeiro trabalho em Assessoria de Comunicação foi em 1995. Iniciou no Cinema/Audiovisual/TV em 1994. Passou temporadas em vários países como Uruguai, Argentina, Bolívia, Panamá. Morou em Estocolmo, capital da Suécia, entre os anos de 2000 a 2002. Sua primeira entrevista para a televisão foi aos 12 anos, no programa de variedades, Vitrine, da TV Centro América. Aos 13 anos, escreveu seu primeiro artigo, publicado no jornal impresso, Correio Várzea-grandense. Desde que se conhece por gente, escreveu histórias, composições musicais, roteiros e poemas.

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