Quando a vida ensina ARTE

Conheça a história da arquiteta paulistana no mundo das Artes Plásticas

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A artista plástica Rosylene Pinto e Marcela Tokiwa, durante aula prática de Expografia no Sesc Arsenal.

Conheci a arquiteta Marcela Tokiwa durante os cursos de Expografia e de Iluminação e Conservação de Obras de Arte, realizado no Sesc Arsenal em Cuiabá. O que mais me surpreendeu, além do seu grande conhecimento no assunto, foi a sua generosidade em repassar para nós, a sua experiência e seus métodos de trabalho. Quem atua nas Artes, sabe muito bem do que eu digo: há muito egocentrismo, talvez, por medo de passar conhecimentos demais e achar que vai perder espaço no mercado. Coisa de tolos! Quando mais compartilhamos experiências – seja no trabalho ou ministrando cursos – mais aprendemos! Há uma rica troca onde todos ganham! Marcela é sábia!

Entrevistar Marcela era algo que eu queria há muito tempo, mas, como tudo na vida tem o momento certo de acontecer, que bom que aconteceu para o meu blog e foi um bate-papo muito gostoso! Então, vamos lá!

Blog da Bárbara Fontes: Marcela, os meus leitores gostariam de te conhecer.

Marcela Tokiwa: O meu nome é Marcela Tokiwa Obata dos Santos. Eu uso os dois primeiros nomes. Na verdade, Marcela Tokiwa é um nome composto. Sou arquiteta.

BBF: Como que uma arquiteta, envolvida no mundo da construção civil, entra para as Artes Plásticas?

Marcela Tokiwa: Eu entrei no mundo das artes depois de uns acidentes. Sempre gostei de pintura, eu era bem novinha e comecei com carvão e fui até o óleo [carvão e óleo são técnicas de pintura]. Cheguei a passar em Artes Plásticas, na FAAP (São Paulo), Regina Silveira e Júlio Plaza [artista espanhol falecido no Brasil em 2003], na época um casal, eram professores de lá. Foi uma época bem interessante para as Artes Plásticas e também para o curso. Mas era muito caro estudar lá e não pude continuar. Eu fui para o Mackenzie [fazer Arquitetura e Urbanismo], uma escola noturna. No Plano Collor eu perdi o meu emprego e meu pai quase entra em falência, novamente tive de parar com os estudos, já no último ano e com entrega de TCC. Terminei o curso na UNIBAN e me formei arquiteta. Depois, surgiu um trabalho, mas como voluntária, no Museu da Imigração Japonesa no Brasil. Quando eu podia, eu estava lá doando e levando coisas de família para serem expostas. Foi bem interessante. Se me perguntarem o que me emociona, é esse museu.

Blog da Bárbara Fontes: Como era o seu trabalho na Arquitetura?

Marcela Tokiwa: Acabei indo mais para o lado de Projetos. Fui projetista por um bom tempo e fui Cadista também. Trabalhei em algumas grandes construtoras, como a Azevedo & Travassos, e outras mais pequenas e mais técnicas. Eu tive um problema de toxoplasmose, uveíte nos olhos, e tive de parar de trabalhar. Tempos depois, sofri um assalto e recebi uma pancada na cabeça e perdi uma boa parte da visão. Com isso eu não podia mais ficar desenhando em computador, mas mesmo assim, eu tinha uma acuidade visual para cores e fui ser assistente de um restaurador, o Celso do Prado. Ele vendo a minha situação, me chamou para trabalhar com ele.

Blog da Bárbara Fontes: Como foi esse novo momento da sua vida?

Marcela Tokiwa: O Celso do Prado é uma pessoa maravilhosa e que me ensinou muitas coisas sobre madeira e sobre pedra. Com ele trabalhei em algumas obras e aprendi muito. Para mim é o melhor restaurador de pedra que eu conheço. Com ele, também aprendi muito sobre conservação e restauro de madeira, onde tudo tem um tempo, não é um trabalho como o pastel frito que você faz e entrega rapidinho. Madeira não é assim. É um trabalho que precisa de muita calma e paciência. É muito bonito esse trabalho.  Celso foi chefe de Conservação da Bienal e me chamou para trabalhar com ele. E desta forma comecei a trabalhar na área, na época eu fazia uma limpeza numa obra de Maria Martins [escultora brasileira falecida em 1973], e não conhecia esse universo de bienais, de pessoas vindo de fora. Eu já tinha ido visitar, mas não sabia dos bastidores. Depois desse trabalho de montagem da Bienal, eu fui fazer outro trabalho por indicação da Eloise Ricciardelli, na época diretora do MOMA (Museu de Arte Moderna), de Nova York. E foi assim que fui trabalhando como Assistente de Restauro, com montagens finas, com penas, com plumárias, e até me chamavam para colocar moscas na parede, é de um trabalho de um pernambucano, Flávio Emanuel [exposição Teleguiados], e foi bem interessante. Até que precisaram de um trabalho no MASP (Museu de Arte de São Paulo) e eu acabei sendo convidada para trabalhar com eles.

Blog da Bárbara Fontes: Marcela, como foi trabalhar no MASP?

Marcela Tokiwa: Eu fiz um trabalho maravilhoso no Masp. Participei da organização da nova reserva técnica, no 3º subsolo. Foi incrível! Porque eu era a única mulher da área de montagem que foi convidada por ser arquiteta e lidar com obras de arte. Foi incrível pegar aquela reserva técnica vazia e você ajudar a organizar, colocar os quadros em cada teleiro, as esculturas. Foi muito lindo! Foi um trabalho que eu gostei muito.

Blog da Bárbara Fontes: E depois do MASP?

Marcela Tokiwa: Depois da organização da reserva técnica, eu fiz a exposição Brasil 500 Anos, na Oca [Pavilhão da Oca, no Parque Ibirapuera/SP], onde trabalhei na montagem, e antes mesmo da montagem, trabalhei com recepção e assistência em restauro e conservação de obras. Fiz as bienais do Mercosul, a segunda e a quarta edição. Fiz bienais internacionais da 24º até a 27º de São Paulo, onde fui chamada para fazer algumas salas e também fui responsável por algumas salas de artistas.

Blog da Bárbara Fontes: Como foi trabalhar no Museu da Imigração Japonesa no Brasil

Marcela Tokiwa: Depois do MASP, meu trabalho foi reconhecido pelo próprio Museu da Imigração Japonesa no Brasil e fui da Comissão de Exposições e da reforma do 9º andar que era destinado para falar da atualidade, porque era um museu histórico e faltava falar dos Nikkeis, da contemporaneidade, não só falar da vinda da imigração. Foi assim que fui trabalhar no museu, mas não mais como voluntária e sim como contratada num projeto da Petrobrás. Depois eu tive de sair por conta de um convite da coordenadora do Acervo e Desenvolvimento Cultural do MASP, que tinha gostado do meu trabalho. Foi no momento em que eu estava procurando ir para o Japão, para fazer uma pesquisa sobre cerâmica.

Blog da Bárbara Fontes: Como foi voltar para o MASP?

Marcela Tokiwa: No acervo do MASP eu aprendi muito. A coordenadora Eunice Sophia foi de uma bondade imensa e me ensinava muita coisa sobre documentação, catalogação e todo o trabalho. Não teve nada do dia-a-dia dentro de um acervo que eu não tenha feito. Trabalhei lá por oitos anos e foram muitas pesquisas e exposições. O museu recebeu uma doação de porcelanas chinesas, que eu adorei tanto e até fui fazer um curso sobre porcelanas na Fundação Eva Klabin, no Rio de Janeiro. Eu saía daqui de São Paulo, às terças-feiras de manhã, e voltava na quarta-feira de madrugada. Essas porcelanas chinesas, assim como algumas gravuras, foram doadas por Fátima Soutello Alves, viúva do diplomata Lauro Soutello Alves que representou o Brasil em vários países asiáticos. Também recebemos a doação de Pré-Colombianas maravilhosas, com tecidos, metais e cerâmicas. Eu também fui atrás para saber mais, fiz uma pesquisa, entrei em contato com vários museus. Eu fiquei imersa nessa pesquisa e, infelizmente, essa exposição não foi apresentada porque nós não tínhamos condições de apresentar essas peças da forma como eu gostaria. No MASP eu fiz atendimento à pesquisa, medições de obra, higienização, e depois de um tempo, isso não pode mais ser feito pelo pessoal do Acervo, e ficou separado para o pessoal do Restauro. Até aí, todos nós já tínhamos aprendido.

Blog da Bárbara Fontes: Quando você teve contato com a expografia? 

Marcela Tokiwa: Havia um rodízio no próprio museu das pessoas que saiam como courier. Esses intercâmbios foram as oportunidades em que eu tive de conhecer alguns outros museus, conhecer mundo afora e também conhecer os bastidores de algumas instituições. Foi um crescimento pessoal porque eu não ia lá apenas para ver as obras de arte em si, eu ia para estudar como as obras eram apresentadas, como elas eram montadas, desde o mínimo do paspatur, do vidro que é usado, da base, a materialidade de como tornar possível uma exposição. Isso me deixava muito de feliz de ver essa possibilidade e comecei a estudar muito Expografia.

Blog da Bárbara Fontes: Como foi entrar ‘de cabeça’ nesse universo da expografia?

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Expografia de uma exposição. Crédito: Thaís Franco

Marcela Tokiwa: Teve um curso do MinC (Ministério da Cultura) para Técnicos de Museus, veio um cara excelente na área de Museografia, Juan Carlos Rico, da Espanha. Ele tem vários livros sobre montagens de exposições. Isso só foi enriquecendo ainda mais e eu fui mais atrás desse tema. O MASP, antes do Teixeira Coelho [curador-chefe do MASP] chegar, passou por maus bocados, não tinha aporte para exposições, então o próprio Acervo é quem montava as exposições, e eu ficava nessa parte de distribuição das obras, de fazer a expografia, e nós mesmos quem fazíamos os textos e confeccionávamos as legendas. Eu sentia que mesmo dentro a crise financeira, havia uma liberdade enorme para a criatividade. Foi muito bom, pelo menos pra mim, porque eu podia mostrar um pouco mais do que eu sabia nessa área e na área de Arquitetura Aplicada. Com a chegada do Teixeira Coelho, comecei atende-lo, dando assistência com os dimensionamentos, com os cronogramas, com os trabalhos porque eu já estava ali naquela lida e já sabia quanto tempo demorava para fazer uma exposição, quanto tempo demorava pra fazer uma pintura, então eu já tinha uma experiência antes dele chegar. E já conhecia os trabalhadores de lá, pessoas maravilhosas, não posso te dizer que eu “mandava”, pois a gente conversava muito. Eu conversava com os pintores e os marceneiros. Foi uma boa relação.

Blog da Bárbara Fontes: Como foi trabalhar com o professor e crítico de arte, Teixeira Coelho?

Marcela Tokiwa: Foi muito interessante trabalhar com o Teixeira Coelho porque ele era exigente demais e eu também. Tínhamos até algumas diferenças em alguns momentos, porque a gente queria tudo muito certo. Mas ele entendia e eu também entendia, e assim foi um trabalho muito interessante, até que nós dois saímos do MASP por conta da nova diretoria que entrou em 2014. Nos meus últimos dias no museu, recebemos obras de arte africana Iorubá, e eu pude fazer a museografia. Não pude fazer uma pesquisa mais completa porque é um universo imenso, uma arte maravilhosa, não é só a obra em si, mas tem a ver com o comportamento das pessoas. É uma outra relação entre o objeto, a obra e as pessoas.

Blog da Bárbara Fontes: O que aconteceu depois da sua saída do MASP?

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Exposição “Ofício e Engenho”, de Sílvio Nunes Pinto. Crédito: Leopoldo Plentz.

Marcela Tokiwa: Depois que me dispensaram do MASP fui acolhida pela Vera, da Fundação Vera Chaves Barcellos, onde trabalhei na organização da exposição “Ofício e Engenho”, de Sílvio Nunes Pinto [falecido em 2005], desde a coleta, catalogação e a expografia. Sou muito grata à Vera!

Blog da Bárbara Fontes: Como foi trabalhar na montagem da exposição do cineasta alemão Wim Wenders?

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Crédito: Blog +1teko

Marcela Tokiwa: Eu ia muito pouco nas aberturas das exposições que eu montava. Eu me arrependi de não estar na abertura da exposição de Wim Wenders [lançamento mundial da exposição de fotos “Lugares, Estranhos e Quietos”], onde ele me chamou para agradecer em público, e algumas pessoas me contaram depois, o quão grato e emocionado ele ficou. Ele disse que sem a minha presença a exposição não teria sido possível. Isso foi maravilhoso! Pena que eu não ouvi pessoalmente.

Blog da Bárbara Fontes: Marcela, qual é o conselho que você pode dar às pessoas que querem seguir a carreira de curadoria, expografia, restauro e conservação de obras de arte?

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Marcela ministrando um curso de Expografia. Crédito: Tiely Santos.

Marcela Tokiwa: Bárbara, como tive uma carreira sem muita lógica e sim portas abertas e aproveitando as oportunidades; se for para aconselhar, digo que a melhor escolha é a escola: cursos de graduação, especialização onde a pessoa se encontre e tenha prazer no seu trabalho, seja em restauro, curadoria e conservação. Todas estão interligadas em algum aspecto dentro dos campos de museus, galerias e exposições. Professar nesta escolha de área que fará o melhor para si e para o mundo. Acho que é isto!

Para entrar em contato com Marcela Tokwia: marcelatokiwa@gmail.com

Conheça o universo das artes plásticas, a partir dos nomes e lugares citados por Marcela durante o bate-papo:

Regina Silveira

Júlio Plaza

Maria Martins

Teixeira Coelho

Wim Wenders (sobre a exposição) 

Museu da Imigração Japonesa no Brasil 

MASP

MOMA/New York

Pavilhão da Oca

Fundação Eva Klabin

Bienal do Mercosul

24º Bienal de São Paulo

27º Bienal de São Paulo

Exposição “Do Coração da África – Arte Iorubá”

Vera Chaves Barcellos

Fundação Vera Chaves Barcellos

Sílvio Nunes Pinto (matéria)

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Publicado por

barbarafontes

Bárbara Fontes é formada em Comunicação Social pela UFMT. Especialista em Educação (Cinema e Educação). É cineasta, jornalista, roteirista, fotógrafa e poetisa. Seu primeiro trabalho em Assessoria de Comunicação foi em 1995. Iniciou no Cinema/Audiovisual/TV em 1994. Passou temporadas em vários países como Uruguai, Argentina, Bolívia, Panamá. Morou em Estocolmo, capital da Suécia, entre os anos de 2000 a 2002. Sua primeira entrevista para a televisão foi aos 12 anos, no programa de variedades, Vitrine, da TV Centro América. Aos 13 anos, escreveu seu primeiro artigo, publicado no jornal impresso, Correio Várzea-grandense. Desde que se conhece por gente, escreveu histórias, composições musicais, roteiros e poemas.

15 comentários em “Quando a vida ensina ARTE

  1. Marcela é uma pessoa maravilhosa, uma profissional maravilhosa e uma professora maravilhosa.
    Lendo agora tudo o que ela já passou e aprendeu, conseguimos entender a facilidade que ela tem de lecionar sobre esta área.
    Sucesso sempre! Beijos Tokiwa!

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    1. Grata Rosangela! Você já veio ao curso do técnico de museus com experiência do Museu de Zoologia da Usp e enriqueceu minhas disciplinas com seus ricos comentários dentro de seu trabalho. Sempre eu dizia que eu não estava formando técnicos e sim futuros colegas de profissão. Um abraço fraterno. Sucesso em seus projetos e neste caminho da preservação e educação.

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  2. É uma alegria imensa reencontrar uma amiga dos tempos da escola (7a. e 8a. série). A Marcela Tokiwa Obsta foi quem conheci e nunca esqueci e ela sempre foi essa pessoa amiga que compartilha e gosta de ensinar e aprender. Lembro dos nossos trabalhos escolares em sua casa. Tempos valiosos e inesquecíveis. O evento da internet possibilita esses reencontros tão bons e ela continua linda.

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    1. Grata Monica, o tempo não é capaz de apagar as boas amizades e tudo que ela marcou de bom. Aprendi muito com seu jeito elegante, fraterno e diplomático de ser, eu sempre agitada, moleca e zen muita pazienzia querendo viver tudo em segundos. Um abraço bem apertado!

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  3. Marcela é um ser humano dos mais generosos que conheci e será sempre uma de minhas queridas professoras do curso de Técnico em Museologia! E por meio desta ótima entrevista ao blog, pude compreender o tamanho dessa profissional incrível!

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  4. Bárbara, foi muito gratificante lembrar desta trajetória tão cheia de caminhos, parece um tronco de árvore de onde sai um galho e ele para de crescer, aparece outro e a no fim a árvore cresceu. Quando você me disse que seria um bate papo sobre minha trajetória veio um turbilhão de memórias. Tantas pessoas e tantos trabalhos que parecia um rolo de filme de cada exposição, da docência, da arquitetura, dos artistas, das obras, dos alunos, colegas de trabalho…até que fiz algumas coisas e não percebi! Só gratidão para este momento de encontro com minhas memórias! Sucesso!

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  5. O sorriso é fonte de renovação da alma. A sua construção é uma arte que emerge do pensamento e colore o coração. Assim foi acompanhar entrevista com a querida e encantadora amiga Marcela Tokiwa, sorrisos fáceis diante de tanto deslumbramento!

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