Universo Xavante no Audiovisual

Documentário mato-grossense sobre um ritual Xavante é premiado em Festivais de Cinema

 

O Brasil tem mãe índia e deve à ela toda reverência. Ela habita na ancestralidade de boa parte do povo brasileiro. Depois da chegada dos portugueses, nascem os primeiros brasileiros natos, porém, o laço português-indígena são rompidos – como se tirasse um bebê do seio de sua mãe e o deixasse à própria sorte. Infelizmente, nosso país parece ter se esquecido de seu passado índio. Com o avanço dos séculos, o Brasil foi recebendo e absorvendo outras culturas, mudando o seu linguajar e se tornando mais globalizado, mas isso não deve ser o motivo para se esquecer de seu berço indígena. É possível receber todas as benesses que a vida moderna proporciona e ainda manter-se fiel às suas raízes porque somos todos indígenas. O respeito à cultura e as políticas que visam a proteção das etnias que ainda sobrevivem e lutam para não desaparecer, são atitudes recentes se comparados aos 518 anos do surgimento do Brasil. Os ritos indígenas têm significados tão importantes quanto o aprendizado das primeiras letras que todos nós, não-indígenas, passamos na infância.

Toda e qualquer manifestação que visa a preservar, conservar e homenagear a  cultura indígena brasileira deve ser prestigiada por todos nós. O documentário “Xavante: Memória, Cultura e Resistência”, cumpre a bela missão de nos reconectar com as raízes do Brasil índio. O Blog da Bárbara Fontes enviou algumas perguntas para o diretor do documentário, Gilson Costa, que também é professor de Comunicação Social da Universidade Federal de Mato Grosso, campus Araguaia (UFMT/CUA):

Blog da Bárbara Fontes:  Como surgiu a ideia de produzir um documentário sobre um ritual dos Xavante?

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Gilson Costa (de boné) nas filmagens do documentário. Crédito: NPD/UFMT-CUA

Gilson Costa: O documentário Xavante: Memória Cultura e Resistência” surgiu a partir de um  projeto de extensão que tinha como principal objetivo oferecer oficinas de capacitação audiovisual para jovens xavante  da aldeia Namunkurá. O projeto foi realizado entre  os anos de 2014-2016. No último ano do projeto, estava programado  o ritual de iniciação dos jovens xavante, o qual fomos convidado para realizar as filmagens. Este corte de 19 minutos [o documentário] surge de um produto maior com mais de 1 hora de duração, com todas as partes do ritual, todos  os depoimentos e sem legendas [que foi entregue à etnia]. A versão que circula em festivais está voltada para promover  o conhecimento da cultura Xavante, pelos Waradzu (não indígenas).

BBF: Da ideia até a finalização, quanto tempo foi? O NPD Recebeu algum recurso financeiro?

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Crédito: NPD/UFMT-CUA

Gilson Costa: O documentário demorou dois anos para ser finalizado. Parte do tempo foi destinado a tradução, realizada pelo Gaspar Waradzere, indígena e professor na aldeia. Outro fator que  demandou esforço e tempo na fase da montagem foi o processo de pesquisa, onde mergulhamos no universo da cultura Xavante para compreendermos as  minúcias do ritual e da cultura.  Entretanto acreditamos que este documentário presta sua contribuição no sentido de reforçar a importância dos povos indígenas em nosso país e estimular, na sociedade não indígena, o respeito pela diversidade  étnica e cultural.  O projeto  teve o apoio da Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e da Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso, através do Prêmio Tradições/MT.

BBF: Como os Xavante receberam o documentário? Existe algum projeto para dar continuidade à essa parceria?

Gilson Costa: Considerando que o Núcleo de Produção Digital  está localizado  em uma área cercada de povos indígenas, a parceria  é frequente. Desde a  sua fundação, em 2014,  realizamos atividades conjuntas. Este ano, estamos retomando as produções  na aldeia Namunkurá com o projeto “Tsirãpré Dzawidzé: Proteção do Cerrado”, uma  demanda em conjunto com a  Namunkurá Associação Xavante. Desta vez a ideia é produzir uma série de cinco episódios sobre a importância do cerrado e a fundamental papel que os povos indígenas desempenham para sua preservação e sustentabilidade.  Neste sentido, o audiovisual vem se tornando uma importante arma de afirmação cultural e étnica do povo Xavante.

BBF: Quantas pessoas trabalharam na realização do documentário?

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Crédito: NPD/UFMT-CUA

Gilson Costa: O filme foi construído coletivamente. Além da equipe da UFMT, contou com a participação de professores indígenas e jovens que participaram da oficina de formação audiovisual na aldeia durante o ano de 2015.

BBF: Quantos prêmios o documentário Xavante: Memória Cultura e Resistência” já recebeu?

Gilson Costa: O documentário recebeu o prêmio de melhor pesquisa na mostra SESC de Cinema de Mato Grosso, em 2017, recebeu  três premiações na 15º Festival Latino Americano de Cinema Ambiental (CineAmazônia), como Melhor Documentário, Melhor Trilha Sonora e Melhor Montagem. Em  junho de 2018, também foi premiado na  Mostra Ecofalante. Foi exibido em  Festivais na  Colômbia, no Chile e na Bolívia.

BBF: O documentário está disponível no youtube ou outra plataforma? Caso ainda não esteja, como pode ser adquirido?

Gilson Costa: Foram distribuídas cópias do documentário para escolas públicas do Araguaia (MT). Este ano ele vai fazer parte da plataforma povos originários do Brasil, que a UFMT está criando para pesquisas e consultas públicas.

BBF: Atualmente, o Núcleo está produzindo algo? Há algum lançamento audiovisual previsto ainda para este ano?

Gilson Costa:  O NPD tem como uma de suas principais atribuições, a formação técnica  qualificada de realizadores da região do Araguaia. Neste sentido, empenhados em nossa tarefa pedagógica de formar realizadores audiovisuais desta região. No campo da produção audiovisual, o NPD,  está apoiando um documentário (já em fase de finalização) cuja a temática aborda o manifesto ritual do Congo, com lançamento  previsto para agosto deste ano.

Sobre o Núcleo de Produção Digital (NPD):

O Núcleo de Produção Digital (NPD) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) – Campus Araguaia, foi implantado em 2014, por meio de uma parceria com o Ministério da Cultura e a Secretaria do Audiovisual e, desde então, vem produzindo narrativas audiovisuais sobre as histórias da região do médio Araguaia, e também apoiando a realização de projetos independentes. Entre as ações do NPD  está a formação de mão de obra técnica e criativa, contemplando as diferentes etapas da cadeia produtiva do audiovisual.

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Crédito: NPD/UFMT-CUA

Desde a sua criação, o NPD tem trabalhado incansavelmente em prol do fomento e difusão do audiovisual numa região com fortes referências étnicas, se tornando um importante polo de formação e incentivo para o audiovisual no lado mato-grossense da região Araguaia. Entre os anos de 2014 e 2015, o NPD realizou um circuito de formação contemplando cinco áreas específicas do audiovisual, com instrutores reconhecidos no cenário nacional. Essa ação contemplou cerca de 220 pessoas, as oficinas tiveram como público alvo artistas, realizadores independentes e estudantes (universitários e secundaristas da rede pública) dos municípios de Barra do Garças, Aragarças, Pontal do Araguaia, Araguaiana e General Carneiro. Em 2016, o Núcleo realizou oficinas de capacitação nas comunidades indígenas da etnia Xavante (Aldeia São Marcos e Namunkurá) que tiveram a oportunidade de registrar por meio do audiovisual, a sua rica cultura, o seu modo de vida, a sua cosmologia, e difundi-la para os não-indígenas.

A boa semeadura rendeu ótimos e talentosos frutos:  “ex-alunos” tem procurado o Núcleo em busca de apoio para diferentes propostas de obras audiovisuais, em especial, do gênero documentário.

Produção Audiovisual

Além das capacitações em Audiovisual, o Núcleo de Produção Digital realizou várias produções como o documentário média-metragem Veredas do Araguaia (direção de Daniel Santigo, 2015); a série televisiva com cinco episódios de 13 minutos, Ser Tão Araguaia2 (direção de Amauri Tangará, 2015); o documentário etnográfico Xavante: Memória Cultura e Resistência (direção de Gilson Costa, 2016); e o documentário de média metragem Catireiros do Araguaia (direção de Carina Benedeti, 2016).  Realizou parceria para a co-produção do telefilme Benedito que subia: Do profano ao Divino (direção de Izis Negreiro, 2016). Também supervisionou produções realizadas por alunos do curso de Jornalismo, da UFMT/CUA:  Acabou né? (2015), exibido na 14º Mostra Audiovisual Universitário da América Latina (MAUAL); e Raízes de Fé (2016), exibido no Congresso Brasileiro da Comunicação (EXPOCON-Centro Oeste). No início de 2018, o NPD deu apoio às gravações locais do longa metragem Marcha que não terminou do diretor e documentarista paulistano Daniel Santiago.

Cineclubismo no Médio Araguaia

O Núcleo de Produção Digital  também contribuiu com a implantação e difusão do cineclubismo na região. O Circuito Exibidor do Araguaia conta com CineClubes em diversas cidades e em três comunidades indígenas da etnia Xantes e Bororo. Veja lista abaixo:

 

* Cineclube Morro de Mesa – município de Pontal do Araguaia/MT;

* Cineclube Joaquim Curcino Nery – município de Araguaiana/MT;

Cineclube Fleury Belém – município de Barra do Garças/MT;

* Cineclube Araguaia – Cadeia Pública, município de Barra do Garças/MT;

* Cineclube Pícua – município de Baliza/GO;

* Cineclube 14 Bis – município de Aragarças/GO (F) Cineclube Rondon – município de General Carneiro/MT;

* Cineclube Tugo Baisare – Aldeia Indígena Merure – Bororos/MT;

* Cineclube São Marcos– Aldeia Indígena São Marcos – Xavantes/MT;

* Cineclube Namunkurá – Aldeia Indígena Namunkurá -Xavantes/MT.

 

Segundo o professor Gilson Costa, todos os cineclubes foram contemplados com um “kit” de exibição, contendo equipamentos de projeção de imagens, caixas acústicas amplificadas, mesa de som, tela de projeção, além da disponibilização de todo o acervo fílmico da Programadora Brasil.

 

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Publicado por

barbarafontes

Bárbara Fontes é formada em Comunicação Social pela UFMT. Especialista em Educação (Cinema e Educação). É cineasta, jornalista, roteirista, fotógrafa e poetisa. Seu primeiro trabalho em Assessoria de Comunicação foi em 1995. Iniciou no Cinema/Audiovisual/TV em 1994. Passou temporadas em vários países como Uruguai, Argentina, Bolívia, Panamá. Morou em Estocolmo, capital da Suécia, entre os anos de 2000 a 2002. Sua primeira entrevista para a televisão foi aos 12 anos, no programa de variedades, Vitrine, da TV Centro América. Aos 13 anos, escreveu seu primeiro artigo, publicado no jornal impresso, Correio Várzea-grandense. Desde que se conhece por gente, escreveu histórias, composições musicais, roteiros e poemas.

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