Não fuja para a Bolívia

Conheça os três casos mais famosos de fugitivos que se deram mal em terras bolivianas.

 

1967 – La Higuera

 

Segundo relatos da época, um maltrapilho, raquítico, doente e de cabelos e barba compridos não reagiu à ordem de prisão, e de costas para os militares ergueu as duas mãos em rendição. Em vão. Foi alvejado com tiros, caiu morto, e teve as duas mãos decepadas. O homem que parecia Jesus Cristo, segundo os moradores do vilarejo de La Higuera, era o médico argentino, Ernesto Che Guevara, o braço direito e esquerdo de Fidel Castro durante a Revolução Cubana (1953-1959).

Somente em 1997, os restos mortais de uma das 100 personalidades mais importantes do século XX, segundo a revista Time, foram encontrados numa cova em Vallegrande, 50 km de La Higuera. Eu estava na Bolívia naquele épico momento, e havia jornalistas de várias partes do mundo, familiares de Che e representantes do governo cubano. Havia muita euforia. Um dos filhos de Che, ministrou uma palestra na Universidade de Cochabamba. Na ocasião, eu ganhei de presente uma réplica de um quadro pintado pelo irmão de Che, onde há um poema. Tenho até hoje. Atualmente, os restos mortais e as mãos de Che estão enterrados em um mausoléu em Santa Clara, em Cuba.

 

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Este poster de Che, que ganhei de presente na Bolívia, me acompanha há 20 anos. Até para a Suécia, ele já foi!

 

Falar de Che sempre será polêmico e dividirá opiniões. Sempre haverá o famoso relatório da CIA que o apresenta como um assassino impiedoso e terrorista perigoso. Sempre haverá a história de um cara que viajou por todo o continente sul-americano e viu com os próprios olhos a dura vida de campesinos e trabalhadores. Ele viu a miséria e a opressão dos governos locais – servos das grandes potências mundiais. A luta armada, naquele cenário político em que se encontrava a América Latina, era a única solução para os que não aceitavam os governos ditatoriais. E sempre haverá um fato inquestionável: Che foi morto sem o direito de um julgamento justo. Ao matar Che pelas costas, no fatídico dia 8 de outubro de 1967 – um homem que já estava à beira da morte -, os militares bolivianos e a própria CIA, o tornaram imortal.

 

Em 2013, eu ministrava aulas de Espanhol e tive um aluno – um senhor que me contou uma história intrigante: ele conheceu Che Guevara em Cáceres, quando este seguia para a Bolívia na década de 1960. Também é de conhecimento público, o depoimento do professor Carlos Jorge Reiners (já falecido) sobre a passagem de Che em Mato Grosso. É bem provável que ele chegou à Bolívia por Mato Grosso.

 

 

1972 – Em algum lugar do Altiplano

Se havia algo mais odioso do que Hitler (já declarado morto), no final da Segunda Guerra Mundial, eram os nazistas que conseguiram escapar das tropas aliadas. Muitos vieram para a América Latina porque tinham muitos ‘fãs’ que ocupavam cargos importantes nos governos. Enquanto o ‘anjo da morte de Auschwitz’, Josef Mengele, vivia a sua liberdade no litoral de Bertioga, em São Paulo, Brasil; outro filho do capeta vivia nos trópicos bolivianos: Klaus ‘Barbie’ Altmann.

 

Os dias do oficial nazista na Bolívia começaram a ter um fim, a partir da publicação de uma série de reportagens do jornalista Ewaldo Dantas Ferreira, no Jornal  da Tarde (entre 1972/73).  O paradeiro do nazista conhecido como ‘o carrasco de Lyon’ (também tinha o ‘apelido carinhoso’ de ‘o açougueiro de Lyon’) finalmente havia sido confirmado. Para quem não faz a mínima ideia de quem era Barbie, é importante dizer que ele odiava crianças judias (Anne Frank foi para Holanda para fugir do nazista). Ah, ele também tinha um ódio mortal do líder da Resistência Francesa, Jean Moulin. Após a traição de um ‘amigo’, Moulin foi preso e torturado pessoalmente pelo chefe da Gestapo (polícia secreta alemã), e não resistiu aos ferimentos. O nazista considerava essa morte como um prêmio.

 

Ewaldo foi o primeiro jornalista a entrevistar Barbie na Bolívia por pura sorte do destino. Segundo uma entrevista do jornalista, na época com 81 anos, concedida à revista ‘Problemas Brasileiros’, de março de 2007, a série de reportagens sobre o ‘açougueiro de Lyon’ surgiu após o jornal francês “L’Aurore”, em 1972, publicou que que havia uma suspeita de que o nazista vivia na Bolívia como um comerciante abastado e de muitos contatos com membros do alto escalão do governo. A informação levou os maiores veículos de comunicação do mundo a enviarem os seus  jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas até o país sul-americano em busca de umas das maiores entrevistas do século XX.

 

Barbie, que até então vivia tranquilamente, foge do local porque tinha medo de ser assassinado ou sequestrado. É nessa fuga cinematográfica em que o jornalista brasileiro enviado por “O Estado de S. Paulo” encontra a grande chance da sua vida profissional: foge junto com o nazista num fusquinha pelo altiplano boliviano. Conversa vai e conversa vem, e entrevistas surgem: “Uma grande aventura, trabalhando à noite, fugindo de madrugada e ouvindo as revelações de um homem que matara milhares de pessoas, mas continuava convicto do trabalho que fizera”. (revista Problemas Brasileiros, março de 2007.)

Quando o jornalista brasileiro conseguiu entrevistá-lo, Klaus Barbie já estava condenado à morte (foi julgado e condenado à revelia) e foragido na Bolívia. Durante a entrevista, o nazista defende os seus atos na Segunda Guerra Mundial (para ele, não há nada de ilícito). No seu julgamento na França, ele se considerou ‘inocente’, e disse que não matou judeus, e sim, matou muitas pessoas que lutavam contra a ocupação nazista na França  (ele era o comandante da repressão à Resistência Francesa). Barbie era procurado por todo o mundo, e as reportagens de Ewaldo Dantas Ferreira deram um ponto final à caçada ao nazista. O jornalista também deu uma aula de jornalismo ao mundo quando se recusou a dizer como descobriu o paradeiro de Klaus, mantendo as suas fontes em segredo.

No dia seguinte à publicação do primeiro capítulo da série, o governo francês pediu a extradição do nazista ao governo boliviano (que negou a autenticidade da entrevista). O jornalista teve o cuidado de fazer com que Klaus Barbie assinasse todas as páginas datilografadas do depoimento. Em janeiro de 1983 (dez anos depois da publicação da entrevista), Barbie é preso na Bolívia e extraditado para a França onde foi julgado e condenado à prisão perpétua. Morreu de câncer na prisão em 1991.

 

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Em 1987, Klaus Barbie (algemado) é julgado e condenado num tribunal na França, por crimes contra a humanidade. Reprodução.

A série de reportagens foram reunidas no livro ‘Depoimento do SS Barbie=Altmann’. Eu era bem menina quando li esse livro pela primeira vez. Reli outras vezes e sempre me emociono. É um dos livros de não-ficção mais chocantes que já li.  A obra foi relançada em 2003. Bons tempos do jornalismo investigativo!

 

 

2019 – Santa Cruz de La Sierra

Ainda não havia anoitecido, quando um senhor de meia idade, de bigode, cavanhaque e cabelos pintados, caminhava tranquilamente por uma rua movimentada de Santa Cruz de La Sierra. Antes de chegar ao seu destino, esse senhor é abordado por policiais, e sem reagir, levanta as mãos e depois se ajoelha. Imediatamente é levado para dentro de uma van branca, seguida por outros carros com policiais que participavam da abordagem. A movimentação chama a atenção das pessoas que testemunham uma cena de filme hollywoodiano. E não era para menos, o senhor com a cara engraçada (disfarce) é Cesare Battisti, 64 anos – considerado terrorista para a polícia e o governo italianos -, condenado à prisão perpétua na década de 1970, por quatro assassinatos.

 

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Cesare Battisti (sentado) durante a viagem Santa Cruz de la Sierra-Roma. Ele segue ao destino que tentou fugir por 38 anos: a prisão perpétua. Crédito: Polícia Italiana

Battisti era ex-membro do Proletários Armados pelo Comunismo PAC). Apesar de dizer que não era assassino e sim um perseguido político, há provas contundentes de que matou e também feriu pessoas. Os crimes aconteceram durante os assaltos para subsidiar as ações e a sobrevivência grupo. Antes de se tornar comunista, Battisti já tinha passagens pela polícia por bandidagem.

 

Em 2004, Battisti entra no Brasil depois que viver foragido na França e no México, Em 2010, ele recebe um presente do presidente Lula, que em seu último dia de mandato nega a sua extradição, o que permite ao italiano uma vida livre no litoral paulista. Em dezembro de 2018, o presidente Michel Temer, que também estava em final de mandato, autoriza a extradição. Battisti foge de casa e segue um roteiro ainda não esclarecido, e que tem como destino a Bolívia. Após uma ação conjunta entre as polícias do Brasil, da Bolívia e da Itália, Cesare Battisti dá adeus à liberdade e embarca para Roma – sem passar pelo espaço aéreo brasileiro. Da capital italiana, o prisioneiro seguiu para a temida prisão ‘Cárcere de Oristano’, onde terá como companhia os mafiosos mais perigosos do país. A penitenciária de Segurança Máxima fica na Sardenha, uma ilha circundada pelo mar Mediterrâneo, e região autônoma da Itália.

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Fachada do Cárcere Oristano, na Sardenha. O novo lar de Cesare Battisti. Crédito: Il Messaggero.

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