Carta para Jejé de Oyá

Várzea Grande, 20 de janeiro de 2019.

Querido Jejé,

Já faz algum tempo que eu não acordava tão feliz, eufórica por causa de um sonho bom. Finalmente sonhei com você! E foi lindo – como sempre é.

Antes de qualquer coisa, quero que saiba que eu lembrei do seu terceiro aniversário de passagem para a espiritualidade. Eu realmente esperava pelo dia 11 de janeiro há dias para lhe escrever uma carta, dedicar uma missa à sua memória da Matriz de Várzea Grande, enfim, fazer as coisas que faço no dia 11, há três anos.

 

A verdade nua e crua, Jejé, é que eu não consegui! Como uma roteirista profissional eu diria: tive um bloqueio criativo! Infelizmente Jejé, acordei estranha nesse dia, triste, melancólica, e o pior de tudo: eu só conseguia lembrar da sua morte – aquele triste início da manhã, quando eu cheguei mais cedo na Assessoria de Comunicação da MTi e recebi a notícia. Essa visão de eu saindo desnorteada de lá e caminhando em direção ao gabinete do governador Pedro Taques para comunicá-lo, e de repente, senti uma mão segurando o braço e vejo o Liu Arruda (!!) e me dizendo telepaticamente (não mexia os lábios): não fale com o governador, fale com o Leandro Carvalho. Imediatamente o meu corpo virou contra a porta de vidro, desistindo de ir até o gabinete, e já ligando para o secretário de Estado de Cultura Leandro Carvalho, bem cedinho. Graças a Deus, ele já estava acordado, contei o que acontecia e quando eu vou fazer um pedido urgente, a ligação cai! Ele estava no interior, muito distante de Cuiabá, e a ligação estava ruim. Horas depois, eu soube que o governador estava viajando. Será que é por isso que Liu apareceu pra mim? O governador não estava no gabinete e eu perderia tempo indo até lá!

 

Enquanto eu tentava ligar novamente, eu seguia para o PS de Cuiabá. É sempre bom lembrar que você não morreu lá. Morreu em frente do local onde morava e se tratava, dentro de um Home Care. Levar para o P.S foi uma decisão do médico que o atendeu. Da home Care para o Pronto Socorro de Cuiabá, o corpo foi encaminhado para o necrotério.

 

Lembrar de tudo isso é também relembrar da imprensa: de repente meu celular não parava de tocar: jornalistas pedindo a confirmação da morte. Eu não sei quem deu a notícia primeiro na imprensa – mas eu eu sei pra quem eu dei a informação primeiro.  Só sei que enquanto um monte de jornalistas me ligavam ou me chamavam pelo whats, alguns amigos me enviam links com notícias (e postagens nas redes sociais) da morte de Jejé (cada coisa inventada!! – tinha imbecil falando de HIV – algo que você nunca teve!!!). Enquanto eu seguia para o PS, meu celular não parou de tocar – na verdade, os jornalistas não me deixavam em paz, e eu disse pra mim mesma, pela primeira e última vez na vida: eu odeio jornalistas!! Eles não entenderam a minha dor. A notícia tinha de ser dada mesmo que havia informações incorretas. Mesmo tremendo, eu escrevi uma nota no meu perfil no Facebook sobre a sua morte -explicando direitinho-, e enviei para muitas pessoas, mas não adiantou muito.

 

Eu ainda estava em choque com a sua morte, meu querido amigo, que eu aprendi a amar desde o dia em que meu pai, me contou das suas visitas na Secretaria de Fazenda (Sefaz), perto da praça Ipiranga, quase ao lado do Fabico. Meu pai o descreveu com tanta veracidade, que eu o vi sem mesmo ter visto ao vivo e a cores. Minha família tinha chegado recentemente à Mato Grosso. Quando te vi pela primeira vez, eu menina, você andava pela rua vestido de bata, turbante, joias e balangandãs, eu sabia que era você!  Foi amor à primeira vista. E você foi muito gentil comigo. Hoje, eu sei que você encantava a garotada. E você ficava feliz com esse reconhecimento. Quem diria que a nossa vida iria se entrelaçar na militância à favor da Cultura, que iríamos conversar e rir muito, e que você iria me receber em sua casa com os meus alunos que pesquisavam sobre a boate Sayonara, para a produção de um documentário (que eu adoro por sinal!). E quem diria, Jejé, que nos seus últimos cinco anos de vida, eu ficaria ao seu lado e, voluntariamente, seria a sua ‘Relações Públicas’ (rss). Quem diria Jejé, que eu teria de ajudar a família que era responsável por você durante o período de doença – por cinco ano -, a correr atrás de um monte de coisas para liberar o seu corpo no necrotério, viabilizar recursos financeiros para o seu funeral e o seu enterro. Escolher caixão e flores…

 

Enquanto Mato Grosso especulava sobre a sua morte e um monte de gente falsa publicando ‘condolências’ ou choramingando nas redes sociais, eu estava tentando assimilar tudo o que acontecia, ao mesmo tempo ligando para resolver a questão do velório, recebendo a segunda ligação mais importante (a primeira foi a do Leandro Carvalho, que terá a minha eterna gratidão): a doação do túmulo. Foi um dos seus melhores amigos quem fez essa doação que não tem preço. Muitas pessoas se solidarizaram neste dia, e pode passar o tempo que for, o meu coração será grato por tudo. Também minha eterna gratidão a todos que nos ajudaram com você em vida – nesses cinco anos de “Amigos de Jejé” – todos unidos pelo restabelecimento da saúde de Jeje de Oyá – o maior ícone da cultura mato-grossense.  E sempre vou agradecer a todos que oram pela sua alma, Jejé!

 

Então Jejé, eu não consegui escrever no dia 11, e fiquei mal por isso. Ao mesmo tempo eu sentia em minh’alma que você não se importava com isso, e que você já sabia que eu me lembrei de você com muito carinho e saudades. Realmente eu fiz bem em não escrever porque seria uma carta triste e, talvez, um pouco rancorosa. Ainda não sei lidar com a falsidade de algumas pessoas que falam de você publicamente, e que eu sei que NÃO esteve ao seu lado quando mais precisou. Eu acho que os jornalistas e a população deveria perguntar qualquer pessoa que pense em usar o seu nome em benefício próprio, se ela esteve com Jejé nos últimos anos de vida, se ajudou nas fraldas geriátricas, com remédios, passando noites na UTI, se ajudou no funeral e no enterro, e se, quando em vida, visitou Jejé e o levou um alento que só o amor verdadeiro pode dar. E eu sei quem são essas pessoas que ficaram ao nosso lado quando Jejé mais precisou, e sei que Deus está abençoando cada uma delas!

 

Bom…agora é a hora que falar da vida de agora. Muita coisa aconteceu desde o nosso último encontro em sonhos. Eu segui a sua orientação e não voltei a estudar italiano, mas também não consegui estudar francês – mas está no plano de 2019. Continuo com os meus estudos em Jornalismo, a especialização e me preparo para o Mestrado na área. Jornalismo é a minha missão. Ainda bem que não me atrapalha no Audiovisual – que eu também não vou deixar de fazer – ah, vem documentário novo aí! Você, Jejé, e o Arne Sucksdorff continuam sendo os meus guias espirituais, toda a vez que sonho com vocês, eu acordo tão bem e mais forte para seguir com os meus sonhos. O Blog é resultado disso também. E olha que o Blog se mantém com recursos próprios (e de doações de amigos), e conseguiu a proeza de obter cinco mil acessos em dois dias, sendo que é tudo espontâneo, orgânico e graças ao engajamento dos leitores – ainda não tenho dinheiro para investir no Blog – mas terei, tenho fé! Os acessos têm aumentado a cada dia!! E todos os dias eu tenho um expediente para cumprir, todo dia eu escrevo, e voltei a escrever sobre política (adrenalina pura!). Ontem, eu me lembrei da minha vida na Europa, convivendo com o porta-voz do Partido Verde no Parlamento Europeu (naquela época), com jornalistas de várias partes do mundo, e pude conhecer alguns correspondentes de guerra.  Aprendi muito, Jejé. Foi um período em que eu me divida entre a vida de jornalista e a de cineasta. Bons tempos.

 

Sobre a política: nem queira saber, Jejé! Nem queira! O ‘trem’ está feio por aqui. Na verdade está tenso aqui em MT, no país, na América Latina, na Central, nos EUA, na Europa, no Oriente Médio e na Ásia. Está tudo muito confuso e violento. Sobre o nosso presidente da república, toda vez que o vejo, tenho a sensação de que ele não está bem de saúde. Parece estar sempre medicado e pálido. Eu não votei nele, e apesar do meu voto no Álvaro Dias nos dois turnos, eu acredito que esse país só se resolverá com uma pessoa que tenha o perfil do João Amoêdo. Escreve aí, Jejé: ele será o próximo presidente do Brasil.

 

Jejé foi bom essa conversa! Essa carta anual teve de ser escrita! E consegui escrever! E mais uma vez isso se deve a você, que apareceu em meus sonhos, me fez companhia e conversou muito comigo. Finalmente eu vi sobre a ideia do filme: como contar a sua história. Sinceramente, eu não havia sequer pensado nessa possibilidade de abordagem. Fiquei feliz que você entendeu o que eu queria fazer: uma homenagem sincera e que você teria de estar lá. Sim, eu já havia desistido do filme há algum tempo. Agora, eu já sei como retornar o projeto. E sei que você apoia em tudo!

 

Como é bom lembrar de você sem aquela dor do dia da sua morte! Como é bom sentir o meu coração mais leve. Eu sei que és um espírito evoluído! E é uma honra pra mim saber que sempre seremos amigos. Agora é a hora de me despedir, e por favor, leve um abraço apertado e saudoso à Isabel Campos – tenho ótimas lembranças dela! Divirta-se aí, Jejé!!!

 

Com todo amor que há nesta vida,

Bárbara Fontes.

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Publicado por

barbarafontes

Bárbara Fontes é formada em Comunicação Social pela UFMT. Especialista em Educação (Cinema e Educação). É cineasta, jornalista, roteirista, fotógrafa e poetisa. Seu primeiro trabalho em Assessoria de Comunicação foi em 1995. Iniciou no Cinema/Audiovisual/TV em 1994. Passou temporadas em vários países como Uruguai, Argentina, Bolívia, Panamá. Morou em Estocolmo, capital da Suécia, entre os anos de 2000 a 2002. Sua primeira entrevista para a televisão foi aos 12 anos, no programa de variedades, Vitrine, da TV Centro América. Aos 13 anos, escreveu seu primeiro artigo, publicado no jornal impresso, Correio Várzea-grandense. Desde que se conhece por gente, escreveu histórias, composições musicais, roteiros e poemas.

6 comentários em “Carta para Jejé de Oyá

  1. Linda carta linda homenagem. Jejé merece. Eu o conheci pous eu morei na Cândido Mariano de 66 a 84 e nessa época euvsemore cruzava com ele entre as ruas Cândido Mariano e a Batista das Neves onde ele morou. Eu gostava de conversar conversar com ele é amava vê-lo vestido com as túnicas e os turbantes. Que Deus o tenha na sua Glória.

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