Experiência para toda a vida

Artistas do Grupo Penumbra representam Mato Grosso em residência artística no Sul do país.

Depois do sucesso de levar o Teatro de Sombras para o palco do Cine Teatro Cuiabá, no início deste ano, os artistas Juliana Graziela e Jair Júnior, do grupo Penumbra, partiram para uma experiência que levarão para o resto de suas vidas: a oportunidade de participar de uma residência artística na região serrana do Rio Grande do Sul.  Juliana e Jair contaram para o Blog da Bárbara Fontes como foi vivenciar a experiência que permitiu o intercâmbio teatral com referências do Teatro de Sombras do Brasil e da América Latina.

 

BBF – A última apresentação do Grupo Penumbra em Cuiabá foi também para arrecadar fundos para a residência artística no RS. 

Juliana Graziela – Sim, a última apresentação do Grupo Penumbra-MT no Cine Teatro Cuiabá em janeiro foi para tentar arrecadar fundos para a residência artística no RS, o nome da Residência é Territórios Desconhecidos, Vivência no Teatro de Sombras que acontece no Espaço de Residências Artísticas Vale Arvoredo, na cidade de Morro Reuter, região serrana do Rio Grande do Sul. A residência é ministrada por Alexandre Fávero e Fabiana Bigarella da Cia Lumbra-RS, um coletivo que é referência internacional nessa linguagem, no qual recebemos uma carta convite do Alexandre Fávero (RS), diretor da Cia.

 

BBF – Deu tudo certo? Conseguiram arrecadar? Quantas pessoas viajaram?

Juliana Graziela –  Conseguimos arrecadar uma quantia, porém não foi suficiente, pois só o valor do curso era R$ 2.200,00 para cada participante ou R$ 2.000,00 para cada se tivesse inscrições em duplas, que incluía material, hospedagem e alimentação, ainda tínhamos que comprar passagens para ir. Assim dois integrantes do grupo Jair Junior e Juliana Graziela, para não perder essa oportunidade, fizemos nossas contas pessoais e decidimos nos bancar, acreditando que seria um investimento pessoal em nossos estudos e posteriormente compartilharmos com o grupo todo.

 

WhatsApp Image 2019-02-19 at 6.32.49 PM
Grupo Penumbra no Cine Teatro Cuiabá

 

Contudo, nessa única apresentação tivemos um total de 80 pessoas. Foi um momento maravilhoso, tivemos um público super aberto, curioso, receptivo e afetuoso, conversaram com a gente e foram atrás do pano ver um pouco dos bastidores, tudo isso nos deu ainda mais força e coragem para fazermos esse investimento para aprimorarmos nossos conhecimentos e poder difundir ainda mais a linguagem da sombra para o público. Isso sem falar das parcerias que tivemos, do Cine Teatro Cuiabá e Cena Onze, nas pessoas de Flávio Ferreira, Flávia Taques, Natalia Oliveira e toda a equipe que nos incentivaram e apoiaram essa iniciativa. E toda a equipe do Sesc Arsenal, em especial a Cláudia Borges, analista de Teatro, lá onde tudo começou, no Projeto de Teatro de Formas Animadas 2018.

BBF – Por que era tão importante participar da residência?

Juliana Graziela – A importância de participar dessa Residência em Teatro de Sombra era de podermos aprofundar nossos conhecimentos, estar em contato com outros grupos e pessoas que estudam e trabalham com a linguagem da sombra. E o Grupo Penumbra poder entender mais as potencialidades do Teatro de Sombra, aprender e aprofundar nosso trabalho, contribuir na difusão da linguagem para o público e fazer redes de contato com outros grupos e artistas que também pesquisam e trabalham nessa área. Além de levar o nome de nossa cidade Cuiabá e também do estado de Mato Grosso, mostrando que também estamos inseridos nessa linguagem. Esse foi o 1° módulo e já ficamos com muita vontade de fazer o 2° módulo, que para fazer ele tem que ter feito o 1° módulo.

 

WhatsApp Image 2019-02-14 at 10.35.46
Vale do Arvoredo onde aconteceu a residência artística/Acervo Pessoal

 

BBF – Cite três momentos especiais no evento?

Juliana Graziela – Todos os momentos foram especiais porque lá estávamos realmente imersos para estudar, aprender, pesquisar e desenvolver teatro de sombra. Para começar estávamos em meio à natureza e tínhamos práticas em uma sala de ensaio propicia. Mas se for para falar de três momentos especiais seria, o penúltimo dia que fizemos uma demonstração aberta dos projetos individuais de cada um dos participantes, que na verdade também colaboramos em cena uns com os outros, seja para manipular figura, luz e etc, esse dia tínhamos convidados para nos assistir, o pessoal que cuidava do espaço Vale do Arvoredo e alguns artistas de Gramado e de Porto Alegre que também trabalhavam com teatro de animação, teatro de sombra, foi muito especial esse momento de apresentação, encontro, trabalho, afeto e celebração, também nos superamos pois tinha acabado a luz no dia anterior e não tinha voltado.

 

Outro momento também foi ver os materiais que eles tinham, figuras, fotos, livros e iluminação, de bastante aprendizado, curiosidade e fascinação. E o terceiro seria quando a noite ficamos sentados observando a Lua, conversas, gargalhadas, dança, um bom convívio de grupo. Também vale citar a experiência culinária, comíamos mais coisas naturais, algumas até mesmo das hortas de lá, mas o que eu iria dizer era que me sentia no Master Chef provando pratos e sobremesas diferentes todos os dias, feitos pelas queridas pessoas que cuidam do espaço, que nos tratavam super bem. Tinham participantes de vários lugares Espanha, Uruguai, Argentina, Chile, Brasília, Porto Alegre e Cuiabá. Foi intercâmbio também de linguajar, precisávamos transitar entre português, espanhol e portunhol.

 

Jair Junior – 1 – A recepção no vale, o acolhimento e atenção dos anfitriões.

2 – A Colaboração e união de todos os Sombristas na criação das cenas que foi apresentada.

3 – A fogueira, onde podemos deixar queimar as coisas ruins e nos encher de coisas boas que o vale nos proporcionou, conhecimento amizades e uma paz de espírito.

WhatsApp Image 2019-02-13 at 20.16.29 (1)
A galera que participou da residência ‘Territórios Desconhecidos, Vivência no Teatro de Sombras’, no Morro Reuter, na serra gaúcha/Acervo Pessoal

 

BBF – O que vocês trouxeram na bagagem e que vão utilizar em suas carreiras?

Juliana Graziela – Trouxemos na bagagem muitos aprendizados, compartilhamentos, trocas e afetos de todos. Trouxe também alguns materiais de estudo e fotos que peguei lá para o Grupo Penumbra e as figuras que construí do meu projeto de encenação de sombra com inspiração na lenda do Minhocão do Pari, daqui de Cuiabá-MT. Recebemos um certificado no final de conclusão da residência. Ganhei um mimo, uma lanterna de um dos participantes, do Chileno Pedro, que trabalha com teatro de animação, teatro de sombra, também é iluminador, virou um amigo, a lanterna tem uma chavinha de liga e desliga fora da lanterna, eu como gosto muito de luz, gostei muito da lembrança.

Jair Junior – Trouxemos na bagagem somente coisas boas, amigos parceiros como sombristas, um olhar mais profundo para sombra, não perder a sombra de vista é fundamental, entender o tempo da sombra na cena, foco de diversas fontes de luz e saber sair da cena, cada corte e mudança de cenário estes e outros foram aprendizados essenciais.

 

 

BBF – Depois dessa residência o que mudou no ‘olhar’ e no ‘atuar’ no teatro de sombras?

Juliana Graziela – Através da residência estou com um olhar mais aguçado e de possibilidades para a dramaturgia na sombra, os materiais para as figuras, composição e movimentação de superfícies de projeção e cenicamente explorar esse universo fantástico do teatro de sombra na atuação e na direção, com uma maior bagagem de visão e estudos.

 

WhatsApp Image 2019-02-13 at 20.16.30 (1)
Juliana Graziela atuando como sombrista na residência artística/Acervo Pessoal

 

Jair Junior – A principal mudança no olhar foi ter paciência em cena e deixar a sombra se apresentar. Foi essencial entender o tempo da sombra na cena, saber que cada sombra tem seu tempo de chegar apresentar e sair da cena pude entender melhor a diferença de ângulos e Focos de luz, estar no vale foi fundamental para entender o mundo das sombras e dos sombristas, além de que foi um crescimento espiritual e uma gota extra de energia para o resto do ano.

 

BBF – Como foi a vivência no Vale do Arvoredo?

Jair Júnior – No dia 19/01/2019, eu, juntamente com a amiga e Diretora do grupo Penumbra Juliana Graziela, embarcamos em uma viagem literalmente ao desconhecido, não sabíamos o que iríamos encontrar no vale do arvoredo só tínhamos a certeza de que queríamos ir e se aprofundar no mundo das sombras, no fim do ano de 2018 quando o convite para participar da vivência foi feita a nosso grupo pelo Alexandre, nós já tínhamos a convicção que iríamos, mas a gente queria além, nós como parte integrante do grupo penumbra gostaríamos que todo o elenco também participassem desta experiência mas infelizmente desta vez não foi possível , e então seguimos os dois com destino a Porto Alegre, fizemos uma rápida escala na cidade de São Paulo e logo depois embarcamos rumo a capital do Rio Grande do Sul, chegamos em POA já se passava da meia noite , chamamos um Uber e fomos para um hotel, no caminho ao cruzar por ruas escuras e desertas bate um certo receio eu que já conhecia Porto alegre não me recordava daqueles lugares “estranhos” mas enfim chegamos seguros ao hotel , pedimos algo para comer (ainda conseguimos apesar do adiantar da hora) e demoramos a pegar no sono acho que por conta da adrenalina estar alta e a ansiedade para logo amanhecer e finalmente irmos para o tão esperado vale , na manhã seguinte acordamos cedo tomamos café e ainda deu tempo para uma caminhada pelo centro histórico da grande Porto Alegre, chegou a hora de encontrar com o grupo que iria participar da vivência conosco e então partimos para o local marcado para encontro o portão de desembarque do aeroporto, mas acabamos errando o portão e aguardando o pessoal em outro terminal mas enfim tudo deu certo e logo chegou uma van vermelha para nos buscar, ao adentrar na van já conhecemos nossos novos amigos da vivência, dois chilenos simpáticos uma gaúcha arretada um casal formado por uma Brasileira mineira e um espanhol muito animado e por último uma tranquila Argentina, embarque feito partimos rumos ao Vale.

 

A recepção no Vale do Arvoredo foi magnífica ao descer da van revejo Alexandre e ouço ao fundo um badalar de um sino era o vale nos dando Boas vindas alias que lugar lindo e não tem como esquecer da calorosa recepção, o dia chega ao fim com nosso primeiro contato com a sombra na sala de estudos iniciava ali nossa tão esperada vivência no mundo das sombras. Amanhecer no vale , que paz que tranquilidade ouvir os cantos dos pássaros misturado com o gritos dos bugio e o latido ecoante da grandiosa (em todos os sentidos) Ecoba. Os dias se passaram e fomos nós aprofundando no aprendizado e cada vez mais mergulhado no mundo das sombras. Eu que no primeiro dia quase não dormi pois pra mim era difícil ter largado muita coisa para estar lá no vale, a cabeça por mais que eu tentava não deixava de pensar nos afazeres que deixei para trás, mas com o passar dos dias fui me desligando e literalmente mergulhei naquele mundo naquela paz que o vale é transmitia os pensamentos já não era mais sobre os problemas e trabalhos que tinha largado mas sim sobre a paz interna que estava sentindo foram dias intensos de aprendizagem já não éramos mais um grupo de estranhos que estavam buscando conhecimento ao passar dos dias nos tornamos amigos que buscam os mesmos sonhos o sonho de fazer arte de fazer teatro utilizando a sombra.

WhatsApp Image 2019-02-13 at 20.16.29 (4)

Chega o penúltimo dia da nossa estada e para nossa surpresa o vale literalmente fica no escuro, a energia elétrica tão fundamental para alimentar nossas fontes de luz por conta de rompimento de cabos nos deixa no escuro, e sem comunicação estávamos desligados do restante do mundo, por um momento me preocupo pois não receberia notícias dos meus compromissos, mas como a vibração positiva do vale já tinha tomado conta de mim esta preocupação foi passageira. Os últimos dias foram intensos por conta de uma montagem de cena que tínhamos que fazer todos os colegas empenhados uns ajudando o outro para que tudo desse certo, apresentamos , foi lindo foi gratificante ouvir a voz de um garotinho que estava na plateia nos assistindo com comentários fascinantes e inocentes de uma criança e assim chegava ao fim nossa vivência mais ainda faltava o ato final , a fogueira , que espetacular foi ver aquelas labaredas queimando nossas preocupações e nos restaurando com boas vibrações.

 

WhatsApp Image 2019-02-13 at 20.16.29 (2)

 

O Vale do Arvoredo me proporcionou isto, me fez pensar mais em mim, não foi apenas uma experiência no mundo das sombras mais também foi um alto conhecimento de saber que é preciso desacelerar tirar o pé do acelerador e relaxar , ouvir a voz do coração , deixar de lado um pouco a razão e prestar mais atenção em mim, os sentimentos no vale do arvoredo se afloraram tive a certeza de alguns e deixei de lado outros hoje posso dizer que sou uma pessoa diferente daquela que embarcou rumo ao desconhecido voltei revigorado com combustível para enfrentar as lutas diárias , hoje quando meus dias nãos estão legais eu paro respiro e penso na paz que eu recebi daquele lugar das pessoas de alma boa e generosa que eu conheci trouxe comigo muito mais que conhecimento no mundo das sombras. Trouxe comigo a paz de espírito que estava procurando, me encontrei no vale do arvoredo não só como artista sombrista, mas como pessoa. Agradeço profundamente todos que lá estiveram, sou grato pela minha companheira dos palcos Juliana Graziela por ter me convidado a fazer parte do mundo das sombras, grato ao Alexandre pela generosidade e ensinamentos, grato a Fábi pela atenção e carinho, a todos do Vale pelo carinho e pelas delícias que nos serviam, trouxe comigo todas as receitas..rs. Sou grato ao meus amigos sombristas. Gratidão! espero levar vocês comigo por muito tempo e juntos fazendo o que amamos. Obrigado Vale do Arvoredo foi fantástico essa viagem!!

 

BBF – Quais são as novidades do Grupo Penumbra para 2019?

Juliana Graziela – As novidades do Grupo Penumbra, primeiro temos uma nova integrante a artista e iluminadora Priscila Freitas, que desde do ano passado tinha conversado com a gente que queria entrar para o grupo. Com nosso retorno da residência, vamos aprofundar os estudos da peça A Vila de Pantolux e pensando em uma próxima peça pesquisaremos algumas lendas, que foi um trabalho que nós dois, Juliana Graziela e Jair Junior, começamos a desenvolver na residência, na qual tinha que montar um projeto individual e o meu projeto foi a lenda do Minhocão do Pari e a do Jair foi da Mula sem Cabeça, estudaremos mais algumas e construiremos um espetáculo inspirado nelas. Queremos fazer muitas ações esse ano, oficinas e apresentações. E já temos marcada apresentações no Cine Teatro Cuiabá em abril e em maio estamos indo apresentar e ministrar oficina lá no Sesc Rondonópolis. Fomos convidados a escrever também para a revista chilena, Filamento Revista de Teatro de Sombras, que ganhamos um exemplar, na qual nas próximas edições vamos contar sobre o nosso Grupo Penumbra-MT e também da vivência que tivemos na residência no RS. Também através desses nossos amigos chilenos fomos convidados a participar de um festival independente no Chile, assim temos que trabalhar, apresentar e ministrar oficina muito mais para conseguirmos ir.

 

WhatsApp Image 2019-02-14 at 10.47.56
Juliana Graziela no Valo do Arvoredo/Acervo Pessoal

&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&

Saiba mais:

Grupo Penumbra estreia no Cine Teatro Cuiabá aqui.

Anúncios

Publicado por

barbarafontes

Bárbara Fontes é formada em Comunicação Social pela UFMT. Especialista em Educação (Cinema e Educação). É cineasta, jornalista, roteirista, fotógrafa e poetisa. Seu primeiro trabalho em Assessoria de Comunicação foi em 1995. Iniciou no Cinema/Audiovisual/TV em 1994. Passou temporadas em vários países como Uruguai, Argentina, Bolívia, Panamá. Morou em Estocolmo, capital da Suécia, entre os anos de 2000 a 2002. Sua primeira entrevista para a televisão foi aos 12 anos, no programa de variedades, Vitrine, da TV Centro América. Aos 13 anos, escreveu seu primeiro artigo, publicado no jornal impresso, Correio Várzea-grandense. Desde que se conhece por gente, escreveu histórias, composições musicais, roteiros e poemas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s