Hino de Mato Grosso

Conheça a história de um dos hinos mais belos do Brasil

 

Quando Dom Aquino Corrêa terminou o “Canção Mato-grossense” não imaginava que a obra literária atravessaria o século e se tornaria o hino oficial de Mato Grosso. O poema foi escrito para homenagear o bicentenário de Cuiabá, celebrado no dia 8 de abril de 1919. É importante ressaltar que durante décadas, a capital cuiabana (fundada em 1719) pertencia à Capitania de São Paulo e somente em 1748, com a nomeação do primeiro Capitão-general pela Coroa Portuguesa, Antônio Rolim de Moura, é criado o Estado, portanto, Cuiabá é legalmente mais velha do que Mato Grosso.

 

 

Em 1919, Mato Grosso era outro, assim como a sua capital. Não existia o estado de Mato Grosso do Sul e ainda se ouvia histórias sobre a famigerada Gerra do Paraguai, também conhecida como a Guerra da Tríplice Aliança ou a Grande Guerra. Iniciada em dezembro de 1864, matou milhares de brasileiros, inclusive mato-grossenses, e paraguaios até o seu término em março 1870. Ainda havia resquícios da guerra em Mato Grosso e a ferida não estava totalmente cicatrizada.

 

 

Francisco Aquino Corrêa, nascido em Cuiabá na mesma casa do político Joaquim Murtinho, hoje o Museu Dom Aquino, situado às margens do rio Cuiabá (na avenida Beira-Rio), fez questão de relembrar na obra “Canção Mato-grossense” os heróis cuiabanos que lutaram bravamente na Guerra do Paraguai. Se hoje, Corumbá e Dourados permanecem no território brasileiro é graças aos cuiabanos que deixaram as suas famílias para defender estas cidades tomadas pelas tropas do presidente paraguaio Francisco Solano Lópes, mentor e executor da Grande Guerra. Dom Aquino não queria que o povo mato-grossense se esquecesse dessa parte dolorida da história do Brasil. E nem dos bravos Antônio João Ribeiro, que comandou a colônia militar de Dourados, e  Antônio Maria de Coelho, que liderou a retomada de Corumbá em 13 de junho de 1865. Antônio Maria (Barão de Amambaí) foi o primeiro governador de Mato Grosso depois da proclamação da República, e também é o criador da bandeira do Estado. Na Cuiabá de 1919, também havia outra questão que tirava o sono de muita gente: já se falava, confabulava a respeito da divisão de Mato Grosso, e Dom Aquino era contra.

 

 

O Hino de Mato Grosso

Limitando, qual novo colosso,
O Ocidente do imenso Brasil,
Eis aqui, sempre em flor, Mato Grosso,
Nosso berço glorioso e gentil! 

Eis a terra das minas faiscantes,
Eldorado como outros não há,
Que o valor de imortais bandeirantes
Conquistou ao feroz Paiaguá! 

Salve, terra de amor,
Terra de ouro,
Que sonhara Moreira Cabral!
Chova o céu
Dos seus dons o tesouro
Sobre ti, bela terra natal! 

Terra noiva do Sol, linda terra
A quem lá, do teu céu todo azul,
Beija, ardente, o astro louro na serra,
E abençoa o Cruzeiros do Sul! 

No teu verde planalto escampado,
E nos teus pantanais como o mar,
Vive, solto, aos milhões, o teu gado,
Em mimosas pastagens sem par! 

Salve, terra de amor,
Terra de ouro,
Que sonhara Moreira Cabral!
Chova o céu
Dos seus dons o tesouro
Sobre ti, bela terra natal! 

Hévea fina, erva-mate preciosa,
Palmas mil são teus ricos florões;
E da fauna e da flora o índio goza
A opulência em teus virgens sertões! 

O diamante sorri nas grupiaras
Dos teus rios que jorram, a flux.
A hulha branca das águas tão claras,
Em cascatas de força e de luz! 

Salve, terra de amor,
Terra de ouro,
Que sonhara Moreira Cabral!
Chova o céu 

Dos seus dons o tesouro
Sobre ti, bela terra natal!
Dos teus bravos a glória se expande
De Dourados até Corumbá;
O ouro deu-te renome tão grande,
Porém mais nosso amor te dará! 

Ouve, pois, nossas juras solenes
De fazermos, em paz e união,
Teu progresso imortal como a fênix
Que ainda timbra o teu nobre brasão! 

Salve, terra de amor,
Terra de ouro,
Que sonhara Moreira Cabral!
Chova o céu
Dos seus dons o tesouro
Sobre ti, bela terra natal!

 

 

Criado por meio do Decreto n. 38, de 03 de maio de 1983, pelo então governador Júlio Campos, após uma avaliação realizada entre os anos de 1982 e 1983, por uma comissão formada por Adauto Dias de Alencar, pelos jornalistas Pedro Rocha Jucá e Arquimedes Pereira Lima (que conviveu com Dom Aquino), Marília Beatriz de Figueiredo Leite (filha do desembargador e primeiro escritor Modernista do Estado, Gervásio Leite), e Lidio Modesto.  A missão da equipe de intelectuais e estudiosos da História e Cultura de Mato Grosso era reconhecer oficialmente ou não o Hino de Mato Grosso. O motivo era que o poema de Dom Aquino cita as cidades de Corumbá e Dourados que, com a divisão do estado em 1977, não pertenciam mais a Mato Grosso. Hoje, as duas cidades fazem parte de Mato Grosso do Sul. A comissão decidiu manter a letra original pelo valor histórico que possui. Segundo trecho do Relatório da Comissão,

 

“Mas o heroísmo dessas figuras não diz respeito apenas a Mato Grosso, e sim ao Brasil, nas circunstâncias por que passava a soberania nacional”

 

O Relatório completo está disponível para pesquisa na Superintendência de Arquivo Público de Mato Grosso. Segundo o documento, que revelou vários aspectos da letra do Hino de Mato Grosso, o termo “qual novo colosso”, na primeira estrofe faz uma comparação entre Mato Grosso e o Colosso de Rodes, uma das sete maravilhas do mundo antigo, e que já não existe mais. No trecho “teu progresso imortal como a Fênix”, representa o Estado que, mesmo passando por dificuldades, renascia sempre para o progresso. A alusão está presente também nos brasões de Cuiabá, e de Mato Grosso. Na mitologia grega, o pássaro Fênix é queimado e ressurge das cinzas.

 

 

MariliaBeatriz_fotoAhmad

Marília Beatriz. Foto: Ahmad Jarrah (acervo pessoal)

 

O Blog da Bárbara Fontes conversou com a advogada, escritora e ex-presidente da Academia Mato-grossense de Letras (AML), Marília Beatriz de Figueiredo Leite, que fez parte da comissão que analisou o Hino de Mato Grosso:

 

 

Blog da Bárbara Fontes: O Hino de MT é importante nos dias de hoje? Por quê?

Marília Beatriz: Toda solenidade deve ter uma celebração e nada melhor do que uma canção para apontar os fatos e os feitos significantes de um território.

 

Blog da Bárbara Fontes: No início da década de 1980, a senhora fez parte da Comissão que analisou o Hino de Mato? Qual era o objetivo? O que a Comissão decidiu?

Marília Beatriz: O objetivo era o estudo e a adequação do Hino ao momento histórico.
Havia ocorrido a divisão do Estado e assim era necessária uma avaliação conjuntural.
A comissão decidiu que devia permanecer como era. Se me lembro, eu fui voz discordante pois entendia que Dourados e Corumbá não pertenciam ao estado nascente.

 

Blog da Bárbara Fontes: Quando a senhora ouve o Hino de Mato Grosso, quais sentimentos lhe chegam?

Marília Beatriz: Quando ouço o hino sinto realmente uma emoção pelo amor que devoto ao estado que adotei e a terra dos meus pais.

 

Blog da Bárbara Fontes: Na sua opinião, o Hino de MT deve ser cantado nas escolas como uma obrigação ou somente em momentos festivos?

Marília Beatriz: Entendo que fazer do canto do Hino uma obrigação escolar é perder o sabor, o prazer da surpresa. O que é obrigatório deixa de ter emotividade e passa a ser mera prisão de nenhuma cidadania. O hino é saudação, celebração e como tal deve ser tocado, escutado em liberdade.

 

 

 

Dom Aquino Corrêa

Image

Foto: Missão Salesiana de Mato Grosso

Uma das maiores mentes de Mato Grosso, Dom Francisco de Aquino Corrêa foi o primeiro cuiabano a fazer parte da Academia Brasileira de Letras. Nasceu em 2 de abril de 1885. Foi o bispo mais jovem do Brasil e se tornou Arcebispo de Cuiabá. Fundou a Academia Mato-grossense de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso. Publicou dezenas de livros como “Odes” e “Terra Natal”. Também foi governador do Estado entre os anos de 1818 à 1922. Faleceu na capital de São Paulo em 22 de março de 1956.

 

 

 

Memória Afetiva

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Bárbara Fontes repassa a cena com os Nambiquaras. Foto: Acervo Pessoal

 

Em 2007, eu recebi uma das maiores missões da minha vida profissional: roteirizar e dirigir um videoclipe do Hino de Mato Grosso para o Sebrae-MT. Por meses, eu me debrucei nos acervos sobre Dom Aquino Corrêa e tudo o que envolve a história do hino. Assim nasceu a obra cinematográfica, exibida em quase todos os países do mundo, “Canção Mato-grossense”. O título do videoclipe é em homenagem a Dom Aquino, e mostra as belezas de naturais, a cultura popular e a vida moderna dos mato-grossenses, porém, se esquecer dos verdeiros donos da terra: os indígenas. A trilha sonora reúne os ritmos musicais presentes no Estado. Para realizar a obra cinematográfica foi necessário reunir uma equipe de 120 pessoas e foram utilizados os equipamentos mais sofisticados na época, como uma Redcam (câmera) vinda dos EUA, novidade em Hollywood e utilizada pelo cineasta Steve Spielberg.

 

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Bárbara Fontes e equipe filmam na Aldeia Nambiquara. Foto: Acervo Pessoal

Foi um importante marco para o Audiovisual mato-grossense que contou com o apoio  financeiro e logístico do Sebrae-MT que acreditou no projeto, e que apostou na contratação de uma cineasta mulher criada em Mato Grosso. É importante que eu cite uma pessoa que foi fundamental na escolha de meu nome para o Sebrae-MT: Magna Domingos – uma das mais importantes produtoras culturais do Brasil. Infelizmente, ela nos deixou no final de 2018. Minha gratidão à querida Magna!

 

 

Acesse o link do videoclipe “Canção Mato-grossense” – Hino de Mato Grosso aqui:

 

 

 

*Esta reportagem tem informações da Assessoria de Comunicação do Governo do Estado de Mato Grosso (Secom-MT).

**Foto de capa: Bandeiras de Mato Grosso e do Brasil. Foto: Lenine Martins/Secom-MT

 

***Matéria publicada no dia em que Mato Grosso completou 271 anos, em 09 de maio de 2019.

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