S.O.S CENTRO HISTÓRICO DE CUIABÁ

Cuiabá nasceu do ouro descoberto pelos bandeirantes. O achado enlouqueceu pessoas que largaram tudo e até a família nas regiões que já tinham cidades povoadas, e seguiram para uma viagem longa, cansativa e perigosa a bordo de monções rumo à terra do ouro fácil, como imaginavam muitos. Assim surgiu Cuiabá, uma casinha aqui, outra acolá, um pequeno comércio, e de forma desordenada e sem nenhum planejamento urbanístico, mas as poucas construções arquitetônicas contavam histórias do Brasil Colonial, dependente (ou escravo, como quiser) das demandas de Portugal.

 

Cuiabá recebe novos traços urbanísticos e arquitetônicos com a vinda dos italianos, em especial, dos irmãos Orlando, empreendedores riquíssimos que trouxeram da Europa (vindos de navios) materiais de construção e de interiores, objetos caros e uma forma nova de se viver e de consumir, afinal, os irmãos possuíam o maior estabelecimento comercial: a Casa Orlando – até o famoso coronel inglês Percy Fawcett (o ator Brad Pitt produziu um filme sobre ele) fez compras lá antes de desaparecer na Serra do Roncador (região de Barra do Garças-MT). Muitos povos vieram para Cuiabá e colaboraram com o seu desenvolvimento e progresso, porém, as marcas dos portugueses e italianos continuam fortes no entorno da área considerada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como o Centro Histórico de Cuiabá.

Séculos se passaram e Cuiabá chegou aos seus 300 anos com uma bagagem cultural e histórica que deveria fazer da capital de Mato Grosso uma das mais visitadas do país. Mas não é. Numa pesquisa no Google, realizada pelo Blog da Bárbara Fontes com as palavras-chaves “centro-históricos Brasil”; “capitais mais visitadas do Brasil”; e cidades mais visitadas no Brasil”; e “ranking das cidades brasileiras mais visitadas” (de 2015-2018), Cuiabá não aparece entre as 10 mais (nem entre as 20!). O que chamou atenção nessas pesquisas foram que as cidades mais visitas (excluindo praia e carnaval) possuem Centros Históricos bem conservados e uma política de turismo bem elaborada. E por que Cuiabá não tem? O turismo é uma forma eficaz que agrega a difusão da Cultura local, História, gastronomia e movimenta a economia – e o melhor de tudo: não polui e nem destrói o meio ambiente! E é uma delícia fazer turismo!

 

 

Amigos do Centro Histórico de Cuiabá

E o que dizer do Centro Histórico de Cuiabá? Lamentável é o mínimo a se dizer! Uma questão importante que precisa ser debatida é: a destruição de parte ou total de muitos casarios é culpa dos descendentes que não cuidaram de forma adequada (ou se há disputas familiares pelo imóvel); ou é a falta de interesse da prefeitura que não vê a necessidade de investimentos numa região que já está bem comercial, e que há bairros periféricos mais necessitados de ajuda; ou falta mais fiscalização e de políticas de proteção mais rígidas e eficazes da parte do Iphan? São perguntas que precisam de respostas.

logo ACHC.jpg

A situação é tão séria e urgente, que surgiu o movimento “Amigos do Centro Histórico de Cuiabá” (ACHC), em prol da região que possui um valor incalculável para a História brasileira. O grupo encontrou uma forma inteligente e salutar para chamar a atenção de políticos e autoridades que podem (e devem) trazer soluções para o descaso em que se encontra o Centro Histórico: realizar um evento para discutir, pensar coletivamente e propor políticas públicas.

 

O grupo Amigos do Centro Histórico de Cuiabá é uma ação coletiva de uma sociedade civil e organizada. O movimento surgiu quando começou a cair os casarões. Caiu a casa de Bem-Bem e depois caiu a Casa Pepe. Quando a Casa Pepe caiu, também caiu o nosso mundo porque é a nossa alma, a nossa história e ali estão os nossos antepassados. Era uma referência da nossa Cultura e da nossa cidade, e isso doeu muito em nós. Nós, enquanto sociedade, representantes de várias instituições, arquitetos, historiadores, escritores, artistas e todos os segmentos, estamos todos sensibilizados com o descaso e a falta de cuidado com o nosso patrimônio. Essa ação é para causar essa sensibilização também na sociedade cuiabana.  Isso é muito importante para nós. Se os nossos dirigentes não têm esse amor e esse olhar cuidadoso, nós queremos sensibilizá-los também e para que tenham ações contundentes que possam ocasionar a revitalização do Centro Histórico. (Maria Cândida Silva Camargo, umas das coordenadoras da I Semana do Patrimônio Histórico, e integrante do grupo ACHC.

 

 

O evento

A I Semana do Patrimônio Histórico de Cuiabá acontece de 12 a 17 de agosto, em vários locais do Centro Histórico. A programação inclui palestras, reuniões, feira orgânica, mesas de debates, apresentações de dança, música e teatro, também haverá uma caminhada e um passeio fotográfico pela região. O evento é gratuito. No dia 12, o grupo ACHC se encontra com o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro. Segundo Maria Cândida, o grupo se reuniu no Iphan com vários representantes de instituições, onde produziram um documento para ser entregue ao prefeito, com prioridades de melhorias para o Centro Histórico.

 

 

O Blog da Bárbara Fontes obteve o documento na íntegra:

Cuiabá, 02 de agosto de 2019.

Excelentíssimo Senhor

EMANUEL PINHEIRO

Prefeito Municipal de Cuiabá

 

Senhor Prefeito,

 

Nós, da sociedade civil organizada, entidades de classe, empresas privadas e profissionais de todos os segmentos produtivos da capital, vimos solicitar a V. Exª., informações sobre a utilização dos recursos do PAC, Cidades Históricas, vindos através do Iphan:

  1. a) em quais edificações e espaços públicos foram utilizados os recursos (listagem);
  2. b) quais são as obras em andamento e quais estão paralisadas (listagem);
  3. c) quanto recurso ainda existe disponível (listagem);
  4. d) em quais edificações e espaços públicos serão aplicados e quando (listagem);

 

Solicitamos também, conforme a Lei nº. 6.425 de 31 de julho de 2019:

– a listagem das edificações passíveis de desapropriação, ou seja, aquelas em estado de abandono;

– apoio financeiro e disponibilização de imóvel para a implantação de um Laboratório de Capacitação e Treinamento de Mão-de-Obra da construção civil especializada na manutenção e na construção de sistemas construtivos antigos;

–  por em prática os instrumentos legais, previstos no Estatuto da Cidade, no Plano Diretor e nas Leis Complementares Municipais, a fim de promover a PRESERVAÇÃO EFETIVA do centro, em articulação com o Iphan e com a Secretaria de Cultura do Estado de Mato Grosso, no sentido de MANTER A PAISAGEM, O TRAÇADO DAS RUAS E O CONJUNTO CONSTRUÍDO;

– que  a Prefeitura Municipal desenvolva uma POLÍTICA  PÚBLICA  DE  LONGO  PRAZO  QUE BENEFICIE TODOS os moradores, trabalhadores, comerciantes, ambulantes e proprietários de imóveis do centro antigo tombado, efetivando o plano já tratado entre o Senhor Prefeito e a BRE – BUILDING RESEARCH ESTABLISHMENT LTD;

–  que a Prefeitura Municipal desenvolva uma POLÍTICA PÚBLICA DE LONGO PRAZO para resolver os problemas de SEGURANÇA e SAÚDE PÚBLICA, que atingem cidadãos em situação de rua e dependentes químicos, existentes no centro antigo tombado e entorno;

–  que nenhuma ação seja implementada se não estiver de acordo com um PLANO DE GESTÃO DO CENTRO ANTIGO, com o PLANO DIRETOR DO MUNICÍPIO, com as diretrizes da BRE e com as políticas de preservação do patrimônio de nível municipal, estadual e federal;

 

A sociedade informa que, após décadas de descaso, está desgastada e cansada de gestões ineficientes e que não se comprometem com o patrimônio cultural e histórico. Esse patrimônio está em decadência e degradação, situação que se agrava a cada ano! A sociedade lembra que esse patrimônio fundamenta nossa identidade e é nela que nos reconhecemos!

 

Sem história e memória, não há futuro! Queremos nosso patrimônio bem tratado!

 

 

Programação Completa:

 

ISemanaPatrimonioHistCuiaba

12/08 (segunda feira)

Horário: 9h

Local – Prefeitura Municipal de Cuiabá

  • Agenda do grupo ACHC, com Prefeito de Cuiabá, Secretário Municipal de Cultura sobre as reivindicações e pautas do nosso grupo de trabalho.

 

 

13/08 (terça feira)

Horário – 19h

Local – Cuyaverá | Praça da Mandioca

  • Palestra com a prof.a Ms. História Neila Barreto

Tema: Água de Beber e Equipamentos Públicos de Abastecimento no Espaço Urbano de Cuiabá  -1790 a 1882.

60 VAGAS

 

14/08 (quarta feira)

Horário – 17h

Local – Praça da Mandioca

  • Feira Afro;
  • Feira Orgânica do Quilombo de Mata Cavalo de Cima;
  • Delícias da Pérola Negra: Cardápio Afro e Vegana;
  • Venda de Livros:

“Pérolas Negras as mulheres de Vila Bela na luta pela Afirmação da Identidade Étnica.”

 

 

14/08 (quarta feira)

Horário – 19h

Local – Cuyaverá | Praça da Mandioca

  • Mesa de debates com a Prof.a. Ms em História Leila Borges Lacerda e a mestranda Maria Bárbara (Iphan)

Tema: Patrimônio Histórico e Cultural de Cuiabá.

Mediadora: Prof.a Dra. História Vanda Maria da Silva.

60 VAGAS

 

 

 

15/08 (quinta feira)

Horário – 19h

Casa Verde 715 | Praça da Mandioca

  • “Projeto Quintal de Quinta” com Prof. Ms. Em História Suelme Fernandes e Prof.a Dra. em História Vanda Maria da Silva.

Tema: Sentidos da Historia: Cultura, Religião e Fé na Irmandade dos Pardos de Nossa Senhora da Boa Morte de Cuiabá -1810.

30 VAGAS

 

 

16/08 (sexta feira)

Horário – 19h

*Local: Local: ACC Associação Comercial e Empresarial de Cuiabá  – Endereço:

Rua Galdino Pimentel, 14 2ª sobreloja – Edifício Palácio do Comércio  – Centro Norte.*

  • Roda de Debates: IPHAN, Secretaria de Estado de Cultura, Secretaria Municipal de Cultura e PAGE/MT.

Tema: Políticas Públicas e Soluções Práticas para a Gestão do patrimônio Histórico de Cuiabá.

Debatedor: Eduardo Mahon.

80 VAGAS

 

 

16/08 (sexta feira)

Horário – 19h

Local: MISC

  • Palestra sobre Fotografia Documental com Sérgio Ranalli e José Medeiros.

 

 

17/08 (sábado)

Horário – 8h

Local – Praça Alencastro (Praça da Prefeitura)

  • Concentração para a caminhada em defesa do Centro Histórico, com panfletagem.

Rota: Saída as 9h, da praça Caetano de Albuquerque (Praça do Rasqueado) no sentido Igreja Senhor dos Passos, sobe a Voluntários da Pátria, vira na Pedro Celestino e termina na Praça Alencastro às 11 Hs. Onde teremos manifestações culturais:

  • Apresentação de musica com a Banda da UFMT;
  • Apresentação de teatro com o Grupo Cena Onze;
  • Apresentação da Viola de Cocho Elétrica com Billy Espíndola e Wellington Berê;
  • Apresentação do Grupo de Dança “Flor de Atalaia”
  • Exposições de arte;
  • Oficinas de Recreação Cultural do SESC para as crianças, alusivas ao tema;
  • Passeio fotográfico Mobgrafia (coordenado por Amaury Santos do @fotosmt)

 

 

17/08 (sábado)

Horário – 16:00h  as 00h

Local – Praça da Mandioca

  • Brechó na Casa da Praça;
  • Ateliê 569, com artistas: Roney | Ludmila Brandão e Tula
  • Ateliê Maloca do Quati: Ruth Albernaz;
  • Show com o Trio *Pescuma, Henrique e Claudinho * (18h).

 

 

Atenção:

Todos os bares estarão abertos;

Música na Praça: Cantor Erielsom Marques e Banda – Samba Raiz;

Dança Cigana;

Apresentação Teatral – Grupo Fúria;

Couvert artístico R$ 2,00 por pessoa

ENTRADA GRATUITA PARA TODOS OS EVENTOS

 

 

Inscrições:

Acesse aqui.

Página do ACHC no Facebook, acesse aqui:

 

Saiba mais no Blog da Bárbara Fontes:

Passeio Fotográfico, acesse aqui.

 

 

Acervo do Blog da Bárbara Fontes:

“Cuiabá, Cuiabá” (299 anos), acesse aqui.

“Poema Cuiabania” (300 anos), acesse aqui.

“Turismo”, acesse aqui.

“Carta para Jejé de Oyá”, acesse aqui.

 

 

 

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Publicado por

barbarafontes

Bárbara Fontes é formada em Comunicação Social pela UFMT. Especialista em Educação (Cinema e Educação). É cineasta, jornalista, roteirista, fotógrafa e poetisa. Seu primeiro trabalho em Assessoria de Comunicação foi em 1995. Iniciou no Cinema/Audiovisual/TV em 1994. Passou temporadas em vários países como Uruguai, Argentina, Bolívia, Panamá. Morou em Estocolmo, capital da Suécia, entre os anos de 2000 a 2002. Sua primeira entrevista para a televisão foi aos 12 anos, no programa de variedades, Vitrine, da TV Centro América. Aos 13 anos, escreveu seu primeiro artigo, publicado no jornal impresso, Correio Várzea-grandense. Desde que se conhece por gente, escreveu histórias, composições musicais, roteiros e poemas.

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