CANÇÃO DO JOVEM SHAKESPEARE

Eu quero um amor

Que saiba apreciar

O nascer do sol

No silêncio de um beijo.

 

Que saiba entender

Que a vida

É SIM e, às vezes, NÃO.

E que perdoe as intempéries de meu pobre ser.

 

Eu quero um amor

Que respeite a minha alma de artista

E que não sinta ciúmes

Quando eu estiver fazendo amor com a Arte.

 

Que saiba entender

Que a vida

É curta demais

E que perdoe os meus vários ‘Eu’ andando pela casa.

 

Eu quero um amor

Que queira mergulhar, profundamente,

No oceano dos meus poemas

Em plena madrugada dos amantes.

 

Que saiba entender

Que a vida

Está aí para ser vivida

E que perdoe a minha ânsia em querer vivê-la desesperadamente.

(Bárbara Fontes in Projeto de Poetisa, 2014)

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Dragão Vermelho

Tu, cabelos rubro-fogo ondeados
Pele efélide e sorriso a meia-boca
Gênio indomável.

Eu, guerreiro Zhongguo ren
E também domador de dragões,
Procuro-te em Pequim, na multidão sem fim.

Vejo-te, nas ruas da Praça Celestial
De Qipao vermelho e dourado
Olhar blasé pelo ano quase finado
Ao me ver, teus olhos saem faíscas e um lume das tuas ventas

Tu, nua em um quarto de um Hutong
Candura deitada na seda negra
Lá fora, o frio padece de dor
Fogos de artifícios,
Ano Novo Chinês!

Eu, esfomeado e sedento por ti,
Devoro-te numa saudade imensurável
Do teu mel, eu me regozijo
Ébrio, eu domo você
E teu corpo serpenteia.

Contemplo-te, toda exaurida
Cabelos molhados como lavas de um vulcão em erupção
E nas tuas costas, testemunho atônito
Um imponente dragão vermelho
Que se apodera de ti.

(Bárbara Fontes in Projeto de Poetisa, 2009/2014)

 

 

*Foto de capa: Reprodução/Internet

Cuiabania

Olha só,

Que reunião mais bacana

Neste casarão secular

No oratória tem São Benedito

Nas paredes, retratos antigos

 

Quem está nesta festa?

Cuiabanos de ‘tchapa e cruz’

Pau-rodado também veio

Encantado com o muxirum!

 

Que povo mais festeiro

Liu Arruda com ‘cumadre’ Nhara

Zé Bolo-Flor mais Maria Taquara

E Zé Petetá ‘tchora’ de tanto rir!

 

Julio Müller papeia com Dante de Oliveira

Dom Aquino com os imortais da Academia de Letras

Joaquim Murtinho olha tudo pela janela

Cadê a copa das árvores?

O passado não compreende o presente

 

Que sarau mais democrático

Tem Carlinhos Ferreira e Ivan Belém

Chico Amorim faz coro com o poeta Sodrezinho,

“O lado humano não acompanha o tecnológico”!

Névio Lotufo filmando tudo

Festa como esta não haverá igual

Tem de registrar para posteridade.

E ‘dizque’ depois vai bailar

Vai chamar Marília Beatriz pra dançar

Olha o Dr. Gervásio Leite: um olho na prosa e outro na filha!

 

Aline Figueiredo observa e ri

“Tem ‘aufa’ de artistas plásticos”

Gente boa reunida

Tudo pintado de tinta!
Bela e solícita anfitriã é dona Maria Müller

É o que dizem Marechal Rondon e Ramis Bucair

Um brinde lhe é feito por Rubens de Mendonça

E um poema, como sempre, vem de Silva Freire!
 

Entre serestas, poemas e francisquitos,

Quem escreve miudinho num pedaço de papel de pão?

É Manoel de Barros, cuiabano de ‘tchapa’, pantaneiro de coração

Enquanto isso, Dicke no “toc toc” da máquina de escrever

Chau, no meio do povo, tudo registra

Será que ele vai querer fotografar a Cuiabá de hoje?
 

Toda cuiabania reunida

Não dá pra citar todos, mas, todos estão aqui

No belo casarão dos Müller

Os políticos corruptos

Estão bem longe daqui!
 

Olha só

Adivinha quem não perde um festejo?

É Jejé! É Jejé!

Mas se alguém se espantar porque um filho de Rosário Oeste

Todo de bata e turbante está no meio da ‘cuiabanada’

Eu lhe digo, mesmo que prolongue este poema:

Liga não, Jejé já ‘cuiabanou’ como muitos que estão neste sarau

E Cuiabá é Jejé

Então, está tudo Digoreste!

Palavras!

Palavras, como eu gosto!

Primitivas, simplórias, sofisticadas

E as inventadas por Manoel de Barros

 

As desencantadas por Lord Byron

As exiladas com Casimiro de Abreu

As confessadas por Florbela Espanca

As personificadas em Fernando Pessoa

 

Palavras, como eu as anseio!

Desconcertantes, discordantes, agonizantes

E as que saíram da boca maldita de Gregório de Matos

 

As boêmias de F. Scott Fitzgerald

As libertárias com Mário de Andrade

As modernistas por Manuel Bandeira

As beat(ficadas) em Jack Kerouac

 

Palavras, como eu as digiro!

Aventuradas, entremeadas, gozadas

E as imortalizadas por Ernest Hemingway

 

As politizadas de Pablo Neruda

As humanizadas com Clarice Lispector

As cortejadas por Vinícius de Morais

As atemporais em Cora Coralina

 

Palavras, como eu as procuro!

Verdadeiras, ficcionais, viscerais

E as libertadas das correntes literárias por Drummond de Andrade

 

As inquietadas de Paulo Leminski

As despedaçadas com Caio Fernando Abreu

As marginalizadas por Antônio Sodré

As que chegam ao espanto do acaso em Ferreira Gullar

 

Palavras, como não amar!

As que eu teço, paciente, na minha imaginação

As que ninguém pensou e, que estavam lá, espalhadas no ar…

Peguei todas para mim!