300 anos de Cuiabá

Série ‘Saudades de Cuiabá’: cuiabanos contam sobre suas vidas em outros lugares

Viviane Spinelli

Eu sempre admirei a arquiteta e produtora de cinema Viviane Bressane Spinelli. A sua trajetória de vida me inspira.

 

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Álbum de família: da esquerda para direita: Rodrigo, Bia, Viviane, Tom e Marina. Acervo Familiar/Facebook.

 

 

 

Nascida em Cuiabá em março de 1969, a sua família é pioneira na capital de Mato Grosso. Seus pais, Tom e Bia Spinelli pessoas conhecidas, assim como os seus irmãos Rodrigo e Marina.

Viviane poderia muito bem viver em Cuiabá onde teria todas as condições para seguir em qualquer carreira e uma vida financeira estável, porém, ela sempre quis mais e desbravar o mundo fazia parte dos planos.

 

 

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Rodrigo, Marina e Viviane. Acervo Familiar/Facebook

 

 

Sempre que é possível, Viviane vem para a Cuiabá, como aconteceu em março deste ano onde comemorou com a família e amigos de infância e adolescência, o seu aniversário de 50 anos.

 

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Tanira e Viviane na comemoração de aniversário de 50 anos, em Chapada dos Guimarães/MT.

 

Atualmente mora em Miami (Flórida/EUA), com a médica brasileira, Tanira Belloc, também radicada nos país. Este ano, Viviane completa 26 anos em que vive nos Estados Unidos.

 

Ordem de Rio Branco

Em agosto de 2018, ela recebeu a Comenda da Ordem de Rio Branco das mãos do embaixador Adanio S. Ganen, pela a sua contribuição à Cultura brasileira em Miami.  O evento, realizado pelo governo brasileiro e o IItamaraty/ Ministério das Relações Exteriores, aconteceu no Consulado Geral do Brasil, em Miami. A medalha é a maior condecoração oferecida fora do país. Segundo o Itamaraty, há uma frase em latim gravada: “Ubique Patriae memor”, que significa “Em qualquer lugar, terei sempre a Pátria em minha lembrança”. Numa entrevista concedida para a revista Brazil/USA – South Florida, Viviane Spinelli disse:

Trabalhamos incansavelmente pela divulgação e comercialização de nossa cultura no Brasil, mas principalmente no exterior, com a realização do Circuito Inffinito de Festivais, que produz festivais de cinema exclusivamente brasileiro em várias cidades do mundo.”

 

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Viviane ministrou uma palestra sobre o Brazilian Film Festival, num evento internacional de negócios, nos Estados Unidos. Acervo Pessoal.

 

Viviane é formada em Arquitetura, na Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, em 1991. “Eu morava com a minha avó”, disse. Depois de formada, retorna para Cuiabá onde montou com primo Newton Spinelli Palma a empresa Ayra Arquitetura e Construção.
Em 1994, após conseguir juntar dinheiro, viajou para a Califórnia para estudar inglês. Em 1997, já morava em Miami, e ao lado da produtora de cinema, Adriana  Dutra e da irmã Cláudia Dutra fundam a produtora de cinema, Inffinito. Entre as realizações da empresa está o Brazilian Film Festival, que este ano segue para a sua 23º edição.

 

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O cineasta Cacá Diegues recebeu homenagem no 22º Brazilian Film Festival (2018), em Miami/EUA. Acervo Familiar/Facebook

O Blog da Bárbara Fontes bateu um papo com Viviane Spinelli em dois momentos. O mais recente aconteceu esta semana, durante as suas férias em Punta Cana.

Blog da Bárbara Fontes: Viviane, por que realizar um festival brasileiro de cinema nos EUA?

Viviane Spinelli: A gente queria mostrar para os Estados Unidos que o Brasil não era só samba e futebol. Também tem Cultura e Cinema, e essas coisas não eram vistas lá. A ideia era exibir filmes brasileiros e músicas. Foi uma forma de mostrar a Cultura brasileira.

BBF: Em março, você esteve em Cuiabá onde comemorou o seu aniversário de 50 anos. Como foi esse momento de reencontro com a família e amigos?

Viviane Spinelli: Meu aniversário foi um momento especial na minha vida e celebrar com a minha família foi mágico e muito importante! Nós não só celebramos meus 50, como também a recuperação da saúde de minha irmã. Então foi um evento bem privado, com a família e amigos mais próximos meus e dela.

BBF: A respeito de Cuiabá, o que você mais tem saudades ou sente falta?

Viviane Spinelli:  Sinto saudades das coisas mais simples, como os almoços barulhentos com toda família e da minha infância onde comíamos fruta do pé, como manga, jaboticaba e goiaba (que tínhamos em casa) e também uma fruta vermelha ácida, que chamávamos de jacote e agora acho que chamam seriguela e caju fruta típica de MT que tinham na chácara do meu padrinho tio Vasquinho, onde varias famílias se reuniam todo domingo. Aliás esses amigos de infância da chácara e que em parte ainda fazem parte da minha vida e de meus irmãos, e que estiveram presentes na minha celebração de 50 anos.

BBF: Quais são os seus planos para o decorrer deste ano?

Viviane Spinelli: Meu plano pra 2019 é produzir o 23 Brazilian Film Festival of Miami em setembro. Também quero expandir a minha produção audiovisual em Miami em 2019.
E já estou trabalhando com dois amigos, Jade Matarazzo e Mauricio Ferrazza para isso. Ano passado realizei 2 projetos: direção de produção de uma série de tv, Opção América, direção da Adriana Dutra minha sócia. Foi filmado em maio de 2018 e conta a história da imigração latino americana pra Miami nos último 20 anos. Abordando a situação política de Argentina, Colômbia, Bolívia, Haiti, Cuba, Venezuela e também Brasil, e o porque dos 7 personagens terem optado por Miami. Serão episódios distintos de casa um deles. A série está em fase de pós produção e será veiculada no Canal Brasil no segundo semestre desse ano. Também fiz a direção e edição, no fim do ano passado, de um documentário em Tributo a Miguel Perrotti. Um querido amigo, investidor e filantropo, que faleceu e teve como último legado o apoio a um mural do artista Kobra.

Saiba mais:

Site da Inffinito aqui:

Foto de capa: Viviane Spinelli recebe a Comenda da Ordem de Rio Branco das mãos do embaixador Adanio S. Ganen.

 

 

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De novo, Brasil?

Brumadinho chora e o Brasil estarrecido pergunta: Por quê?

ATUALIZADO: 21/02/2019

– BOLETIM da Defesa Civil de Minas Gerais:

28 dias de buscas; 171 pessoas mortas;

160 corpos identificados e 124 liberados e entregues às famílias;

139 desaparecidos;

192 resgatados;

392 pessoas localizadas.

*Os bombeiros encontraram o local onde funcionava o almoxarifado da sede da mineradora VALE/SA. Há possibilidade de haver muitos corpos soterrados.

 

Multa milionária

A VALE S/A recebeu 14 multas que totalizam R$ 108.323.890,00, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMA) – prefeitura de Brumadinho (MG).

As multas são referentes ao rompimento da Barragem B1, na Mina do Córrego do Feijão, ocorrida em 25 de janeiro de 2019, e foram entregues no dia 31 de fevereiro.

 

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(Foto: prefeitura de Brumadinho/MG)

 

No dia 07, a mineradora apresentou petição que anexa relatórios de monitoramento, e também comunicou que irá interpor recurso administrativo dentro do prazo definido pela legislação municipal (30 dias do recebimento das informações das infrações).

(Com informações da prefeitura de Brumadinho/MG).

 

 

Matéria publicada em 12/02:

As buscas estão concentradas nos locais onde ficava a sede administrativa da empresa Vale (o refeitório e o vestiário). Como o rompimento da barragem do Córrego do Feijão aconteceu no horário de almoço e havia uma grande concentração de funcionários no refeitório.

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04/02

Já se encontram em Brumadinho, a Força Nacional composta de sessenta homens e dois helicópteros. Eles se juntaram aos 250 bombeiros e 22 cães farejadores que lutam incansavelmente para encontrar sobreviventes e corpos. Ainda há mais de 200 pessoas desaparecidas. Não há previsão para encerrar as buscas.

 

A coordenação dos resgates é do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais. Também participam das buscas, bombeiros dos estados de Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, Alagoas e Maranhão.

 

A ida da Força Nacional partiu de um acordo entre o governador Romeu Zema com o ministro da Justiça, Sérgio Moro.

 

 

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Dia 30/01: operações de resgates encontraram diversos corpos. A retirada desses corpos da lama é um trabalho delicado e demorado, por isso, apenas um corpo foi resgatado pela manhã. As atividades seguirão por todo o dia.

Também começaram as buscas nas matas no entorno da barragem. Segundo a assessoria da prefeitura,

A pedido do prefeito Avimar Barcelos uma equipe de bombeiros civis começa a procurar vítimas nas matas no entorno das áreas afetadas pelo rompimento da barragem da Vale. Em visita às comunidades atingidas o prefeito se comprometeu em conseguir essa ajuda para acelerar a localização de pessoas que ainda estão desaparecidas. Parentes e amigos nutrem a esperança de ainda encontrar alguém com vida.

 

 

Quando a ganância fala mais alto

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região atingida pelo rompimento da barragem da mineradora Vale. Crédito: Prefeitura de Brumadinho

A tragédia de Mariana parece que não surtiu efeito para algumas autoridades brasileiras e para a empresa Vale. Dor, tristeza, desamparo e negligência só as vítimas sabem o que é. Infelizmente essa dor é agora também compartilhada pela população de Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte (MG).  Um dos locais mais bonitos do país, que abriga o maior museu à céu aberto do mundo, o Inhotim (não foi atingido por estar numa região mais alta), desaparece na lama tóxica de uma barragem inativa da empresa Vale (de novo!!!), a da Mina do Feijão (Córrego do Feijão). O mais chocante é saber que vidas foram ceifadas e toda uma rica biodiversidade comprometida por causa de uma barragem de tecnologia obsoleta!! Em várias partes do mundo não se utiliza mais essa técnica de contenção de resíduos tóxicos, há outras tecnologias mais eficazes. Quem vai pagar por isso? Dessa vez haverá punições e leis mais rígidas?

Uma cidade enlutada

A prefeitura de Brumadinho comunicou hoje pela manhã que a barragem da Vale “saiu do nível de risco II (dois) e voltou para o nível I (um). Ao se romper, a lama atingiu o refeitório e prédio da mineradora, a pousada Nova Estância, casas, fazendas centenárias e toda a vegetação ao redor. Centenas de animais atolados, e os que não podem ser resgatados são abatidos com um tiro. Triste cenário.

Muitas pessoas estão desaparecidas: funcionários da Vale, moradores e turistas que estavam na pousada. Desde o momento da tragédia, a região conta com 200 bombeiros militares especialistas, de Minas Gerais e de outros Estados.  É incansável o trabalho desses heróis brasileiros! Também são heróis, os civis que estavam no local no início da tragédia e que conseguiram resgatar pessoas até a chegada do helicóptero dos Bombeiros.

 

Velórios em andamentos

A prefeitura também disponibiliza pontos de velório com assistência médica e psicológica. Até da tarde de hoje, 28, ocorreram três sepultamentos no cemitério Parque das Rosas. Abaixo segue as informações sobre os locais dos velórios das vítimas da barragem:

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Doações para Brumadinho

Atenção: faça doações em dinheiro somente para as contas oficiais para depósito abaixo:

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Militares de Israel em Brumadinho

Já se encontra em Brumadinho, os 132 militares (soldados, oficiais e engenheiros especializados em resgate) vindos de Israel. Na bagagem trouxeram equipamentos como localizadores de sinal de celular, radares para água e sólidos, cães, câmeras, drones e máquinas hidráulicas para aumentar o potencial de busca.

Não há preço neste mundo que pague a generosidade, solidariedade e humanidade desses militares e do governo de Israel, que no primeiro momento da tragédia se colocou à disposição do Brasil. Ajuda bem recebida pelos governos federal e de Minas Gerais, e por toda nação brasileira que ainda lamenta pelas vítimas de Mariana (MG), tragédia também por causa de rompimento de barragem de resíduos tóxicos ocorrido há um pouco mais de três anos.

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Crédito: Gil Leonardi/Imprensa MG

Segue informação do governo de Minas Gerais, por meio da Agência Minas: 

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, acompanhou nesta segunda-feira (28/1), em Brumadinho, a chegada das primeiras equipes de militares de Israel que vão ajudar nas buscas e salvamentos das vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho, ocorrido na última sexta-feira (25/1). Ele participou de uma reunião de alinhamento entre as forças de segurança do Estado e integrantes da delegação de Israel para definir como será o início dos trabalhos, ainda nesta segunda-feira.

“Estamos iniciando o trabalho junto com as forças do Exército de Israel. Vejo que, com a tecnologia deles, vamos aumentar a chance de encontrarmos novos sobreviventes e termos mais agilidade para encontrar vítimas, o que vai amenizar e muito a angústia que as famílias têm passado. Sei que palavras não satisfazem, mas compartilho as dores dos familiares e sou grato ao nosso pessoal que tem se empenhado muito, a Polícia Militar, a Polícia Civil, e o Corpo de Bombeiros, que têm feito o possível e o impossível. A partir de hoje, somando com as forças de Israel, esse trabalho vai ser ainda mais agilizado”, afirmou o governador em pronunciamento à imprensa. Após a reunião, ele fez um novo sobrevoo das áreas atingidas.

O comandante da tropa israelense, coronel Golan Vach, também chegou a Brumadinho e pontuou que os trabalhos começaram nas primeiras horas desta segunda-feira.

“Na primeira luz da manhã chegamos à área para ver onde entrar. Agora temos uma imagem do lugar e do que é preciso fazer. Nossa impressão é que os bombeiros estão fazendo um ótimo trabalho. É um lugar muito complicado e perigoso para trabalhar. Decidimos onde nossa delegação vai começar a atuar. Nossos primeiros militares já chegaram no local e o primeiro passo é fazer esforço para achar pessoas vivas. Isso vai ser feito por meio de aparelhos tecnológicos com sinais de celular. Espero que as encontremos e vamos trabalhar com radares para achar pessoas vivas ou vítimas fatais”, completou. (Governo de Minas Gerais//Fonte: Agência Minas)

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*Foto de capa: barragem da Mina do Feijão, Brumadinho/MG. Foto tirada durante o sobrevoo do presidente Jair Bolsonaro na região, sábado, 26 de janeiro de 2019. Crédito: Isac Nóbrega/PR (Agência Brasil/EBC).

Não fuja para a Bolívia

Conheça os três casos mais famosos de fugitivos que se deram mal em terras bolivianas.

 

1967 – La Higuera

 

Segundo relatos da época, um maltrapilho, raquítico, doente e de cabelos e barba compridos não reagiu à ordem de prisão, e de costas para os militares ergueu as duas mãos em rendição. Em vão. Foi alvejado com tiros, caiu morto, e teve as duas mãos decepadas. O homem que parecia Jesus Cristo, segundo os moradores do vilarejo de La Higuera, era o médico argentino, Ernesto Che Guevara, o braço direito e esquerdo de Fidel Castro durante a Revolução Cubana (1953-1959).

Somente em 1997, os restos mortais de uma das 100 personalidades mais importantes do século XX, segundo a revista Time, foram encontrados numa cova em Vallegrande, 50 km de La Higuera. Eu estava na Bolívia naquele épico momento, e havia jornalistas de várias partes do mundo, familiares de Che e representantes do governo cubano. Havia muita euforia. Um dos filhos de Che, ministrou uma palestra na Universidade de Cochabamba. Na ocasião, eu ganhei de presente uma réplica de um quadro pintado pelo irmão de Che, onde há um poema. Tenho até hoje. Atualmente, os restos mortais e as mãos de Che estão enterrados em um mausoléu em Santa Clara, em Cuba.

 

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Este poster de Che, que ganhei de presente na Bolívia, me acompanha há 20 anos. Até para a Suécia, ele já foi!

 

Falar de Che sempre será polêmico e dividirá opiniões. Sempre haverá o famoso relatório da CIA que o apresenta como um assassino impiedoso e terrorista perigoso. Sempre haverá a história de um cara que viajou por todo o continente sul-americano e viu com os próprios olhos a dura vida de campesinos e trabalhadores. Ele viu a miséria e a opressão dos governos locais – servos das grandes potências mundiais. A luta armada, naquele cenário político em que se encontrava a América Latina, era a única solução para os que não aceitavam os governos ditatoriais. E sempre haverá um fato inquestionável: Che foi morto sem o direito de um julgamento justo. Ao matar Che pelas costas, no fatídico dia 8 de outubro de 1967 – um homem que já estava à beira da morte -, os militares bolivianos e a própria CIA, o tornaram imortal.

 

Em 2013, eu ministrava aulas de Espanhol e tive um aluno – um senhor que me contou uma história intrigante: ele conheceu Che Guevara em Cáceres, quando este seguia para a Bolívia na década de 1960. Também é de conhecimento público, o depoimento do professor Carlos Jorge Reiners (já falecido) sobre a passagem de Che em Mato Grosso. É bem provável que ele chegou à Bolívia por Mato Grosso.

 

 

1972 – Em algum lugar do Altiplano

Se havia algo mais odioso do que Hitler (já declarado morto), no final da Segunda Guerra Mundial, eram os nazistas que conseguiram escapar das tropas aliadas. Muitos vieram para a América Latina porque tinham muitos ‘fãs’ que ocupavam cargos importantes nos governos. Enquanto o ‘anjo da morte de Auschwitz’, Josef Mengele, vivia a sua liberdade no litoral de Bertioga, em São Paulo, Brasil; outro filho do capeta vivia nos trópicos bolivianos: Klaus ‘Barbie’ Altmann.

 

Os dias do oficial nazista na Bolívia começaram a ter um fim, a partir da publicação de uma série de reportagens do jornalista Ewaldo Dantas Ferreira, no Jornal  da Tarde (entre 1972/73).  O paradeiro do nazista conhecido como ‘o carrasco de Lyon’ (também tinha o ‘apelido carinhoso’ de ‘o açougueiro de Lyon’) finalmente havia sido confirmado. Para quem não faz a mínima ideia de quem era Barbie, é importante dizer que ele odiava crianças judias (Anne Frank foi para Holanda para fugir do nazista). Ah, ele também tinha um ódio mortal do líder da Resistência Francesa, Jean Moulin. Após a traição de um ‘amigo’, Moulin foi preso e torturado pessoalmente pelo chefe da Gestapo (polícia secreta alemã), e não resistiu aos ferimentos. O nazista considerava essa morte como um prêmio.

 

Ewaldo foi o primeiro jornalista a entrevistar Barbie na Bolívia por pura sorte do destino. Segundo uma entrevista do jornalista, na época com 81 anos, concedida à revista ‘Problemas Brasileiros’, de março de 2007, a série de reportagens sobre o ‘açougueiro de Lyon’ surgiu após o jornal francês “L’Aurore”, em 1972, publicou que que havia uma suspeita de que o nazista vivia na Bolívia como um comerciante abastado e de muitos contatos com membros do alto escalão do governo. A informação levou os maiores veículos de comunicação do mundo a enviarem os seus  jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas até o país sul-americano em busca de umas das maiores entrevistas do século XX.

 

Barbie, que até então vivia tranquilamente, foge do local porque tinha medo de ser assassinado ou sequestrado. É nessa fuga cinematográfica em que o jornalista brasileiro enviado por “O Estado de S. Paulo” encontra a grande chance da sua vida profissional: foge junto com o nazista num fusquinha pelo altiplano boliviano. Conversa vai e conversa vem, e entrevistas surgem: “Uma grande aventura, trabalhando à noite, fugindo de madrugada e ouvindo as revelações de um homem que matara milhares de pessoas, mas continuava convicto do trabalho que fizera”. (revista Problemas Brasileiros, março de 2007.)

Quando o jornalista brasileiro conseguiu entrevistá-lo, Klaus Barbie já estava condenado à morte (foi julgado e condenado à revelia) e foragido na Bolívia. Durante a entrevista, o nazista defende os seus atos na Segunda Guerra Mundial (para ele, não há nada de ilícito). No seu julgamento na França, ele se considerou ‘inocente’, e disse que não matou judeus, e sim, matou muitas pessoas que lutavam contra a ocupação nazista na França  (ele era o comandante da repressão à Resistência Francesa). Barbie era procurado por todo o mundo, e as reportagens de Ewaldo Dantas Ferreira deram um ponto final à caçada ao nazista. O jornalista também deu uma aula de jornalismo ao mundo quando se recusou a dizer como descobriu o paradeiro de Klaus, mantendo as suas fontes em segredo.

No dia seguinte à publicação do primeiro capítulo da série, o governo francês pediu a extradição do nazista ao governo boliviano (que negou a autenticidade da entrevista). O jornalista teve o cuidado de fazer com que Klaus Barbie assinasse todas as páginas datilografadas do depoimento. Em janeiro de 1983 (dez anos depois da publicação da entrevista), Barbie é preso na Bolívia e extraditado para a França onde foi julgado e condenado à prisão perpétua. Morreu de câncer na prisão em 1991.

 

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Em 1987, Klaus Barbie (algemado) é julgado e condenado num tribunal na França, por crimes contra a humanidade. Reprodução.

A série de reportagens foram reunidas no livro ‘Depoimento do SS Barbie=Altmann’. Eu era bem menina quando li esse livro pela primeira vez. Reli outras vezes e sempre me emociono. É um dos livros de não-ficção mais chocantes que já li.  A obra foi relançada em 2003. Bons tempos do jornalismo investigativo!

 

 

2019 – Santa Cruz de La Sierra

Ainda não havia anoitecido, quando um senhor de meia idade, de bigode, cavanhaque e cabelos pintados, caminhava tranquilamente por uma rua movimentada de Santa Cruz de La Sierra. Antes de chegar ao seu destino, esse senhor é abordado por policiais, e sem reagir, levanta as mãos e depois se ajoelha. Imediatamente é levado para dentro de uma van branca, seguida por outros carros com policiais que participavam da abordagem. A movimentação chama a atenção das pessoas que testemunham uma cena de filme hollywoodiano. E não era para menos, o senhor com a cara engraçada (disfarce) é Cesare Battisti, 64 anos – considerado terrorista para a polícia e o governo italianos -, condenado à prisão perpétua na década de 1970, por quatro assassinatos.

 

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Cesare Battisti (sentado) durante a viagem Santa Cruz de la Sierra-Roma. Ele segue ao destino que tentou fugir por 38 anos: a prisão perpétua. Crédito: Polícia Italiana

Battisti era ex-membro do Proletários Armados pelo Comunismo PAC). Apesar de dizer que não era assassino e sim um perseguido político, há provas contundentes de que matou e também feriu pessoas. Os crimes aconteceram durante os assaltos para subsidiar as ações e a sobrevivência grupo. Antes de se tornar comunista, Battisti já tinha passagens pela polícia por bandidagem.

 

Em 2004, Battisti entra no Brasil depois que viver foragido na França e no México, Em 2010, ele recebe um presente do presidente Lula, que em seu último dia de mandato nega a sua extradição, o que permite ao italiano uma vida livre no litoral paulista. Em dezembro de 2018, o presidente Michel Temer, que também estava em final de mandato, autoriza a extradição. Battisti foge de casa e segue um roteiro ainda não esclarecido, e que tem como destino a Bolívia. Após uma ação conjunta entre as polícias do Brasil, da Bolívia e da Itália, Cesare Battisti dá adeus à liberdade e embarca para Roma – sem passar pelo espaço aéreo brasileiro. Da capital italiana, o prisioneiro seguiu para a temida prisão ‘Cárcere de Oristano’, onde terá como companhia os mafiosos mais perigosos do país. A penitenciária de Segurança Máxima fica na Sardenha, uma ilha circundada pelo mar Mediterrâneo, e região autônoma da Itália.

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Fachada do Cárcere Oristano, na Sardenha. O novo lar de Cesare Battisti. Crédito: Il Messaggero.