Eu, Rondon, Roosevelt, HBO, etc e tal

00121.MTS.Still001 (2)_Easy-Resize.com
Acervo da Escola Estadual Santa Claudina/Mimoso-MT

Eu fico emocionada toda a vez que falo ou escrevo sobre o Cândido Mariano da Silva Rondon – o marechal Rondon! Eu me lembro que no tempo de escola, não ouvia coisas boas sobre Rondon – diziam que ele matava índios e que era um homem mau. Em casa, sempre ouvi coisas boas de Rondon – meu pai sempre o admirou. Então, havia um conflito dentro de mim: afinal de contas, quem era mesmo Rondon??

 

SAM_5645
Expedição de Rondon e Roosevelt. Acervo Casa Memorial dos Viajantes/Diamantino-MT

Somente quando cheguei à vida adulta, já trilhando no caminho do audiovisual, que voltei a ‘me encontrar’ com Rondon,  em 1999, na première do documentário “Roosevelt Rondon – A Expedição”, do jornalista e cineasta Cacá de Souza. É uma obra muito bem pesquisada e que me deixou profundamente comovida por três motivos: primeiro, porque tive uma noção melhor da figura de Rondon; segundo, porque eu conheci o neto de Roosevelt, Tweed, os netos de Rondon, e o cineasta Roberto Farias (enquanto eu finalizava esta matéria, vejo no telejornal a notícia de sua morte. Uma grande perda para o cinema brasileiro!); e terceiro, porque me deu uma injeção de ânimo para continuar a minha pesquisa (que resultou num documentário) sobre o cineasta sueco que viveu no Pantanal, Arne Sucksdorff.

 

00123.MTS.Still001_Easy-Resize.com
Acervo da Escola Estadual Santa Claudina/Mimoso-MT

Anos se passaram, eu me tornei uma cineasta documentarista e recebi alguns prêmios, entre eles, a possibilidade de realizar um longa-metragem sobre a história da primeira capital de Mato Grosso: Vila Bela da Santíssima Trindade. Durante a pesquisa, fui parar no Museu do Exército, situado próximo à Central do Brasil, no Rio de Janeiro, onde encontrei os mapas originais (trazidos de Portugal por Dom Rolim de Moura) de Vila Bela e, também, encontrei um magnífico acervo sobre o Rondon (vi muitas fotos de Rondon, inclusive uma que me comoveu: ele no caixão!).

Em Vila Bela, eu tive uma grata surpresa: Rondon entra, novamente, em meu caminho! Eu tive acesso aos diários do senhor Joaquim Marcelo Profeta, ex-prefeito da cidade, que conviveu com Rondon quando era garoto. Profeta relata com detalhes o cotidiano de um dos homens mais importantes da Terra, indicado ao prêmio Nobel da Paz com apoio de Albert Einstein. Em uma cena do meu documentário “Vila Bela: Terra de Colores”, a filha de Joaquim Marcelo, dona Nemézia Profeta, lê um trecho de um diário. Foi emocionante ouvir o relato e sentir a verdadeira história de Rondon por aquelas bandas. Ali, eu tive  a confirmação do que meu coração já sabia desde os meus tempos de menina: Rondon sempre foi um bom homem. Era rígido na hora em que deveria ser, porém, sempre foi justo.

Anos depois, eu fui dirigir uma série de documentários mato-grossenses e passei no Distrito de Mimoso (região pantaneira onde nasceu Rondon) e na histórica cidade de Diamantino, onde filmei em um dos museus mais incríveis que já visitei na vida: a Casa Memorial dos Viajantes.

SAM_5720_Easy-Resize.com
Finalmente, o meu encontro com Rondon! Casa Memorial dos Viajantes. Foto: Denise Fontes (2014)

E adivinha com quem ‘eu me encontro’? Sim, Rondon! Há uma sala só para o acervo dele com equipamentos, mapas, fotos e muitas informações sobre a viagem de Rondon e Roosevelt! Após perder a reeleição para presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt parte para a maior jornada de sua vida: uma expedição científica em terras brasileiras ao lado do então coronel Rondon. A comitiva era formada por pesquisadores, médicos, militares, cientistas, centenas de ajudantes e uma grande equipe de filmagem e de fotografia.

 

SAM_5623_Easy-Resize.com
Mapa da expedição Rondon-Roosevelt (1913-1914). Casa Memorial dos Viajantes.

 

Iniciada no final de 1913, a comitiva corta o cerrado mato-grossense rumo à selva amazônica (queriam chegar às cabeceiras do rio da Dúvida, feito realizado em 27 de fevereiro de 1914), passando por inúmeros obstáculos por terra e por água, levando à morte três pessoas. Roosevelt contraiu a malária e quase morreu! Num momento de delírio devido à febre alta, pediu para Rondon abandoná-lo no local e continuar a viagem com o restante da comitiva. Rondon, que já tinha vivenciado muitas expedições e visto a morte de perto por várias vezes, não acatou a ordem de Roosevelt (que recebeu todos os cuidados possíveis). Todos seguiram juntos até o final da expedição, ocorrida em maio de 1914.

 

 

 

SAM_5644 (2)
Dois ajudantes, Roosevelt e Rondon, no rio da Dúvida – hoje, rio Roosevelt. Acervo Casa Memorial dos Viajantes. Diamantino/MT

Graças a esses dois desbravadores e a todos os que fizeram parte da comitiva científica, foi possível fazer a cartografia do rio da Dúvida, o principal afluente do rio Madeira com 1.500 km de extensão; catalogar milhares de espécies da vegetação, animais, aves, insetos, répteis entre outros. Também fizeram contatos com diversas etnias indígenas.

 

 

roosevel_rondon_riorooseveltRondon registrou o rio da Dúvida como rio Roosevelt, uma sincera e merecida homenagem ao ex-presidente dos Estados Unidos. A histórica expedição também foi um marco para o audiovisual brasileiro no início do século: cada passo da comitiva foi filmado e fotografado!

 

livro_roosevelt

 

 

A experiência de Roosevelt resultou no livro “Nas Selvas do Brasil” e imortalizou a figura de Rondon, ao ser retratado como um homem digno de respeito e admiração. Rondon e Roosevelt mantiveram a amizade até o fim de suas vidas.

 

 

 

HBO_Hospedemamericano_Easy-Resize.com
HBO Latin America e equipe apresentam a série “O Hóspede Americano” na Rio2C/ Crédito: site aibnews

A jornada de Rondon e Roosevelt pelas selvas brasileiras – antes, durante e depois da expedição científica – se tornou uma das séries que estão sendo produzidas pela HBO. Uma equipe de produção já se encontra em Mato Grosso. Sob a direção de Bruno Barreto,  a série tem quatro capítulos e conta com um elenco de atores brasileiros e estadunidenses. Eu estou curiosa para ver Chico Diaz, um ator formidável, no papel de Rondon, e Aidan Quinn, encarnando Roosevelt.

Mato Grosso está muito bem representado por dois atores que eu admiro muito: Jeferson Jarcem, do grupo de teatro  Tibanaré, e André D’Lucca, o criador da criatura mais polêmica do Estado: Almerinda. D’Lucca também assumiu mais duas funções: na produção e na preparação de uma parte do elenco.

 

FilCommissionMT_Rebrafic_Easy-Resize.com
Da esquerda para a direita: Keiko Okamura (SEC/MT), Regiane Berchieli (Secretaria Adjunta da SEC/MT), Marion Fujiko (SEBRAE – MT), Steve Solot, Bruno Bini (MTCine), Marta Cassin (SEBRAE – MT) e Ricardo Santiago (SEBRAE – MT). Crédito: Rebrafic

A vinda da produção da HBO para Mato Grosso vem num momento muito oportuno para o fortalecimento do audiovisual local. A Secretaria de Estado de Cultura (SEC-MT), em parceria com a Film Commisson Mato Grosso – que está em processo de implantação – acompanham todos os passos da produção estrangeira.  Entre as atividades de uma Film Commission, estão o apoio a operação e logística das produções cinematográfica que vem para a região (sem prejudicar as comunidades locais); e dar suporte e fomentação ao desenvolvimento da indústria cinematográfica local. Uma grande produção como a da HBO em Mato Grosso gera emprego e renda direta e indiretamente, e também dá visibilidade turística à região.

 

Em tempo: Aconteceu no dia 14 de maio, uma reunião entre a produção da HBO e a representante da SEC-MT/Film Commission, Keiko Okamura, para definir questões de produção, filmagens e parcerias. Em Mato Grosso haverá filmagens em Alta Floresta e Chapada dos Guimarães. O Blog da Bárbara Fontes está acompanhando este momento muito bacana e significativo do audiovisual mato-grossense e trará muitas novidades em breve.

Anúncios